Balanço da Política Externa de Obama à luz de Aleppo

Washington, 16 dez 2016 (AFP) - O cerco de Aleppo caminha para o fim, mas a análise da tragédia síria apenas começou e, na hora de prestar contas, Barack Obama provavelmente carregará uma parte do fardo, ainda que sua margem de manobra tenha sido bem mais estreita.

"Os Estados Unidos tiveram inúmeras oportunidades de evitar um massacre, mas homens e mulheres honestos escolheram, em cada caso, desviar os olhos. Todos temos sido espectadores de um genocídio. A pergunta decisiva é: por quê?". Essas palavras, escritas há 15 anos por Samantha Power, ex-jornalista e escritora que se tornou embaixadora dos Estados Unidos na ONU, têm hoje uma ressonância especial.

Esta semana, Power estava no Conselho de Segurança, quando as grandes potências evocaram o drama sírio, agora comparado com os de Ruanda e de Srebrenica, na antiga Iugoslávia.

Pelo menos 300.000 pessoas morreram - o número exato é impossível de se ter - na guerra na Síria, que alcança proporções aterradoras em Aleppo. A ONU informou sobre execuções sumárias de civis na parte leste dessa cidade devastada.

- Síria 'me atormenta' -Samantha Power e a Casa Branca lembram diariamente a responsabilidade de Damasco, Moscou e Teerã nessa tragédia.

"O regime de Bashar al-Assad, Rússia, Irã e suas milícias são os responsáveis pelo que a ONU chamou de 'um colapso da humanidade'", declarou a embaixadora, no Conselho de Segurança.

"Vocês são incapazes de sentir vergonha? Não se abalam diante de um ato bárbaro contra civis, diante de uma execução de crianças?", acrescentou Power.

As forças de Al-Assad, os aviões russos e as milícias apoiadas por Teerã mataram civis sírios. Para vários observadores, porém, Barack Obama tem uma parte da responsabilidade.

"A situação na Síria me atormenta de forma permanente", admitia ela em setembro.

"Saber que centenas de milhares de pessoas morreram, que milhões foram deslocadas, tudo isso me leva a me perguntar sobre o que poderia ter feito nesses seis anos", desabafou.

Sua equipe rejeita com força a ideia de que Washington tenha sido um espectador passivo do drama.

"É ofensivo sugerir que os Estados Unidos e o mundo não fazem nada", declarou o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest.

"Os Estados Unidos têm uma responsabilidade particular, porque somos o país mais influente do mundo. Aceitamos essa responsabilidade", completou Earnest.

- Uma forma de impotência -Para seus críticos, Barack Obama cometeu um grande erro, quando se negou a enfrentar o governo sírio depois que ele lançou um ataque com armas químicas - linha vermelha estabelecida pelo próprio presidente -, o qual deixou centenas de mortos.

Obama rebate que as soluções sugeridas não teriam feito uma diferença relevante.

Frente aos críticos, o Executivo americano repete sua convicção: não há solução militar para o conflito sírio.

"Honestamente, acho que fizemos o melhor possível dadas as circunstâncias", declarou esta semana o secretário de Estado americano, John Kerry, em viagem à Europa.

A poucas semanas de deixar a Casa Branca, o governo de Barack Obama se limitou a ser testemunha da impotência dos Estados Unidos no conflito sírio.

Caberá às próximas gerações julgar se - e por qual motivo - "homens e mulheres honestos" escolheram, em Washington, não olhar para a tragédia síria.

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