O papa 'reformador' Francisco, adulado e atacado, comemora no sábado seus 80 anos

Roma, 16 dez 2016 (AFP) - O papa Francisco assopra neste sábado 80 velinhas, um momento simbólico de um pontificado promotor de reformas e que seduz o grande público, mas desperta críticas da ala conservadora da Igreja.

Oitenta anos é a idade da semi-aposentadoria para os cardeais, uma vez ultrapassada esta idade, perdem o direito de eleger um papa em um conclave. Mas o primeiro papa latino-americano, alérgico a férias, não pretende fazer figuração.

Sua agenda está cheia de cerimônias religiosas, audiências e encontros públicos. Mais caseiro, o papa fez 17 viagens ao exterior em quase quatro anos e planeja para 2017 uma peregrinação a Fátima (Portugal), uma viagem para a Índia e Bangladesh, e talvez outra na África...

Com dores no quadril que, por vezes, o faz perder o equilíbrio, ele não fala de renúncia, como seu predecessor Bento XVI (89 anos) teve a audácia de fazê-lo.

"Eu estou indo em frente", disse ele este ano, enterrando declarações mais melancólicas pronunciadas em março de 2015: "Eu tenho a sensação de que meu pontificado será breve, quatro ou cinco anos".

Jorge Bergoglio, nascido em Buenos Aires em uma família modesta, eleito 266º papa em 13 de março de 2013, viveu a maior parte de sua vida na metrópole argentina onde andava pelas favelas e convivia com a violência.

E seu estilo sorridente desaparece subitamente quando se depara com uma sociedade impermeável aos imigrantes ou uma economia que massacra os mais pobres.

- 'Um hospital de campanha' - A areia da ampulheta do pontificado flui e o incansável papa Francisco parece impulsionado por uma missão urgente: incentivar uma Igreja desertada em alguns países a acompanhar com misericórdia os católicos em situações irregulares.

"Podemos falar de uma revolução, nos passos do Concílio Vaticano II" (1962-1965), que abriu a Igreja ao mundo moderno, indica à AFP o especialista em Vaticano Marco Politi.

"É um grande reformador que tenta fazer com que a Igreja abandone a sua obsessão histórica em tabus sexuais", resume. Ele é o primeiro papa a ter convidado um transexual ao Vaticano, e se recusa a julgar os homossexuais.

"Para ele, a Igreja é um 'hospital de campanha', não um posto alfandegário", que separa os bons e maus cristãos, observa Politi.

O argentino foi eleito, entre outros, para continuar a reestruturação econômica da Santa Sé iniciada sob Bento XVI com, por exemplo, o fechamento de contas suspeitas no banco do Vaticano, por muito tempo acusado de lavagem de dinheiro.

Também é rodeado por oito cardeais para ajudar na reforma cheia de obstáculos da Cúria (o governo do Vaticano).

"Em termos de doutrina, ela não mudou nada. Neste sentido, nunca fez parte dos progressistas", afirma Marco Politi. Assim, o papa não tem a intenção de ordenar padres casados ou mulheres e continua horrorizado com o aborto.

Ele gostaria que seu trabalho reformista tivesse "uma continuidade", ressalta este conhecedor do Vaticano em sua obra "Francisco entre os lobos".

- 'O papa dos jornalistas' - Mas seus críticos conservadores não param de olhar seus relógios. Último episódio de um pequeno atrito: uma carta de quatro cardeais expressando "dúvidas" sobre um texto publicado em abril, em que Francisco, sem questionar o dogma do casamento indissolúvel, abre o acesso à comunhão para divorciados que voltaram a se casar civilmente.

"O papa semeou muita confusão dentro da Igreja", afirma à AFP Marco Tosatti, um vaticanista considerado conservador.

"Ele transmite uma imagem popular, divertida e alegre para a Igreja", reconhece. "Mas as vendas de verão não atraem novos clientes! As igrejas protestantes clássicas são abertas para o mundo, elas acolhem mais pessoas".

"É o papa dos jornalistas, um excelente comunicador", observa.

O papa goza de um forte consenso entre os fiéis, e também entre alguns agnósticos e não-crentes. Esta é uma outra história nos círculos eclesiásticos, confirma Politi: "Eu vejo uma guerra civil no seio da Igreja".

Face aos reformadores muito discretos, os ultra-conservadores tentam desacreditar o papa, avança o especialista.

"O objetivo não é um golpe de Estado, mas hipotecar a propriedade. É como o Tea Party que levou anos para sabotar a autoridade de Obama e que teve um efeito sobre a eleição de Trump".

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