Morre Gregorio Álvarez, o último ditador do Uruguai

Montevidéu, 28 dez 2016 (AFP) - O tenente-general Gregorio Álvarez, último ditador uruguaio, presidente durante o regime de fato que terminou em 1985, faleceu nesta quarta-feira aos 91 anos vítima de uma doença cardíaca.

Álvarez, que se encontrava detido há dez anos, morreu no Hospital Militar de Montevidéu, onde foi internado em meados de dezembro por problemas pulmonares.

Álvarez, apelidado de "El Goyo", foi um militar de carreira brilhante, ambicioso e calculista, que chegou de forma meteórica às patentes mais altas das Forças Armadas e liderou o regime de 1981 a 1985, gerando divisões que perduraram até o fim de seus dias.

Preso em 2007 por atrocidades contra opositores, estava separado de outros militares detidos pelos menos motivos, mas que o detestavam.

Álvarez foi condenado em 2009 a 25 anos de prisão pelo desaparecimento de 40 pessoas transferidas da Argentina durante seu mandato à frente do Exército. Sofria de demência senil.

Os militares o nomearam presidente por quatro anos em 1981, dez meses após os cidadãos rejeitarem em um plebiscito um projeto de Constituição que garantia a continuidade do regime.

Nascido em 26 de novembro de 1924 em uma família de militares, foi o terceiro dela a se tornar general. Foi subindo rapidamente de patente e em 1971, com 45 anos, ganhou por concurso o título de general. Ainda na democracia, o Congresso autorizou sua promoção.

- Tupamaros -No complicado Uruguai do início dos anos 1970, o então general Álvarez liderou o combate à guerrilha urbana Tupamaros, na qual participava o agora ex-presidente José Mujica.

Em uma democracia que fervia pela violência política, pelos protestos sociais e pela repressão, participou de negociações clandestinas com os Tupamaros sem que o governo de então estivesse ciente.

No dia 25 de junho de 1972, os Tupamaros assassinaram seu irmão, o coronel Argias Álvarez, e este fato marcou profundamente sua trajetória militar e política.

Teve um papel importante na gestação do golpe de Estado de 27 de junho de 1973. É considerado um dos redatores de pronunciamentos militares que tinham pontos de coincidência com alguns postulados da esquerda.

Sua verdadeira orientação política foi um enigma. Era considerado próximo ao Partido Nacional; uma força política tradicional que se converteu em um tenaz inimigo da ditadura e, em particular, de sua pessoa.

Como chefe das forças de segurança, Álvarez foi responsável por ações contra militantes de esquerda, que posteriormente se revelariam como brutais torturas, assassinatos e desaparecimentos, no âmbito do "Plano Condor" de coordenação repressiva das ditaduras do Cone Sul.

Sua forma de agir o fez ganhar a liderança em boa parte das Forças Armadas. No entanto, sua descarada ambição pessoal também gerou inimizades porque as Forças Armadas uruguaias eram reticentes em personalizar o regime.

Em 1978, se tornou Comandante-em-Chefe do Exército e assumiu a patente de tenente-general. No ano seguinte passou à reserva por ter acumulado 8 anos no generalato.

Em setembro de 1981 os militares o nomeiam presidente, substituindo o advogado idoso Aparicio Méndez.

- Oposição -Durante seu mandato, iniciado em setembro de 1981, foi acusado de minar as negociações iniciadas pelos militares com os políticos para voltar aos quartéis.

Em 1983, o Uruguai registrava muitos protestos contra o regime, e "El Goyo" convocou a formação de um partido que defendesse os postulados do "processo"; eufemismo utilizado na época para se referir à ditadura. Não teve o mínimo eco.

Para seu desgosto, a oposição foi ganhando as ruas com grandes protestos.

Inimigo dos políticos, preferiu renunciar antes de entregar o poder a Julio María Sanguinetti; o líder do tradicional Partido Colorado que venceu as eleições de novembro de 1984 e que marcaram a restauração da democracia.

Álvarez deixou seu cargo em 12 de fevereiro de 1985.

Segundo a Comissão para a Paz, que investigou entre 2000 e 2003 os casos de desaparecidos, no Uruguai forma 230 desaparecidos no período da ditadura.

Ao contrário dos outros países da região, onde houve milhares de desaparecidos, no Uruguai a metodologia foi a prisão em massa e prolongada dos opositores, com cerca de 6.000 presos políticos em uma população de 3,2 milhões de habitantes.

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