Governo sírio bombardeia rebeldes perto de Damasco, apesar de trégua

Beirute, 2 Jan 2017 (AFP) - O Exército sírio voltou a bombardear nesta segunda-feira (2) uma região rebelde perto de Damasco para tentar recuperar o controle de fontes de água vitais para a capital, porém, os insurgentes denunciaram uma violação da trégua e suspenderam o diálogo.

Vigente há quatro dias, o enésimo cessar-fogo neste conflito deveria abrir caminho para negociações de paz previstas para o final de janeiro em Astana (Cazaquistão), patrocinadas por Moscou e Teerã, que apoiam o governo de Bashar al-Assad, e Ancara, aliada dos rebeldes.

Mas a trégua poderia ser ameaçada se os bombardeios a Wadi Barada continuarem, região controlada pelos rebeldes a 15 km de Damasco, onde estão localizadas as principais fontes de água potável que abastecem os quatro milhões de habitantes da cidade e região circundante.

Dez grupos rebeldes anunciaram que suspendiam qualquer discussão, visando as negociações de Astana, em resposta às "violações" da trégua.

"Estas violações continuam. Os grupos rebeldes anunciam (...) a suspensão de qualquer discussão relacionada com as negociações de Astana", indicaram em um comunicado.

Há duas semanas, antes da trégua apadrinhada pela Rússia e pela Turquia, a Força Aérea bombardeou essa área quase que diariamente, e as tropas do governo avançavam nesta segunda-feira para os arredores de Ain al-Fige, uma importante fonte de água.

Nesta região, dois civis morreram por disparos de franco-atiradores do regime, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

Advertência rebelde"Bombardeando Wadi Barada pelo ar e com artilharia, as tropas do regime, apoiadas pelo Hezbollah xiita libanês, avançaram na área e estão em torno de Ain al-Fige", informou o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), que afirma que os combates continuam.

Em 25 de dezembro, o governo acusou os rebeldes de "contaminar com diesel" a rede de abastecimento de água, enquanto estes últimos apontam sua negligência. Há uma semana falta água em Damasco, e seus habitantes fazem fila diante de caminhões-pipa.

Diante da continuação dos bombardeios, os rebeldes de Wadi Barada alertaram para o perigo que paira sobre a trégua.

"Pedimos aos patrocinadores da trégua que assumam a responsabilidade e pressionem o regime e suas milícias aliadas para parar as violações flagrantes do acordo", disseram, em um comunicado, acrescentando que, caso contrário, "vamos chamar todas as facções rebeldes que operam na Síria a desobedecer o acordo e inflamar as frentes".

Membros do grupo extremista islâmico Fateh al-Sham, ex-facção da Al-Qaeda na Síria, lutam ao lado dos rebeldes na região. Este grupo, assim como o Estado Islâmico (EI), está excluído da trégua, o que torna esse cessar-fogo muito difícil de ser aplicado.

Mas um responsável do grupo rebelde Kaich al-Islam, Abdel Rahmane al-Hamoui, desmentiu qualquer "presença do Fateh al-Sham ou de qualquer grupo excluído da trégua em Wadi Barada".

"Processo político"Para dar mais peso à sua iniciativa, a Rússia obteve no sábado o apoio - ainda que moderado - do Conselho de Segurança da ONU.

Apoiando "os esforços da Rússia e da Turquia para acabar com a violência na Síria e lançar um processo político, o Conselho de Segurança" se limitou a tomar nota dos termos do acordo, recordando a necessidade de se implementar "todas as resoluções pertinentes da ONU".

Entre elas, a resolução 2254 prevê, por iniciativa de Washington, estabelecer um roteiro abrangente para acabar com a crise.

Em plena transição política e à espera da posse de Donald Trump, os Estados Unidos não participaram das negociações da última trégua. Washington apoia a oposição a Damasco.

Já a Turquia promove pela primeira vez um acordo como este, graças a sua aproximação com a Rússia, que busca um acordo de paz após sua intervenção militar apoiando o governo de Bashar al-Assad desde setembro de 2015.

As negociações de Astana deverão preceder as discussões em Genebra, em fevereiro. As tentativas anteriores de diálogo não permitiram vislumbrar uma solução para o conflito, que já deixou mais de 310.000 mortos e milhões de refugiados.

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