Dividida e fragilizada, oposição venezuelana lança nova ofensiva contra Maduro

Caracas, 5 Jan 2017 (AFP) - A oposição venezuelana, fragilizada por disputas internas, anunciou nesta quinta-feira uma nova ofensiva contra o presidente Nicolás Maduro, a quem disse que vai declarar em "abandono do cargo" e insistirá em tirar o poder pela via eleitoral.

No começo de seu segundo ano à frente do Parlamento, a Mesa da Unidade Democrática (MUD) anunciou seu passo-a-passo para 2017, após ter fracassado em seu plano de revogar o mandato de maduro com um referendo em 2016.

"O que nos resta é lutar sem medo para salvar a Constituição, salvar a Venezuela, salvar o direito ao voto. Cabe a nós juntos e à força de coragem vencer esta ditadura", disse Julio Borges, advogado de 47 anos, ao assumir como novo chefe do Legislativo no lugar do veterano Henry Ramos Allup.

Muitos venezuelanos, porém, não puderam assistir à posse, nem acompanhar o discurso de Borges pela TV, só pela internet. Durante a sessão parlamentar, o governo retransmitiu um ato de Maduro na véspera.

Ex-líder opositor, Borges anunciou que "nos próximos dias" Maduro será declarado em "abandono do cargo" por descumprir deveres e mergulhar o país petroleiro em uma das piores crises de sua história, segundo seus adversários.

Com essa declaração, a Assembleia Nacional "abre as portas para que haja eleições em todos os níveis na Venezuela", de presidente, governadores, prefeitos e inclusive parlamentares, disse Borges, sem dar detalhes de como será realizado o pleito.

Mas esta declaração ficaria no plano simbólico, pois a Justiça, acusada de servir ao chavismo, anula as decisões legislativas ao considerar em desacato o Parlamento, que pela primeira vez em 18 anos de governo chavismo é controlado pela oposição.

Um vice superpoderosoMaduro, por sua vez, se prepara para a nova fase de confronto. Nesta quarta-feira, ele remontou seu gabinete e nomeou o advogado Tareck El Aissami, de 42 anos, que se define como "radicalmente chavista", à vice-presidência no lugar de Aristóbulo Istúriz.

El Aissami tornou-se, assim, uma figura-chave porque seria seu substituto caso seu mandato seja revogado em um referendo este ano.

"Da Assembleia ilegítima pretendem impor o discurso de ódio e desrespeito à Constituição. Não esperávamos menos de uma direita deplorável, racista e impopular", disse El Aissami, em ministro do Interior e que até agora governava o estado de Aragua.

Maduro pediu a El Aissami que se encarregue da segurança do país e que lute contra os "terroristas da extrema direita". Ele assegurou que este ano será o da "recuperação" e mudou sua equipe econômica.

"É a mesma equipe fracassada", reagiu Borges.

"Brincando com fogo"Borges não mencionou se a oposição continuará impulsionando um referendo, após o processo ter sido suspenso em outubro passado pelo poder eleitoral, mesmo se não representar mais uma saída do chavismo do poder. Só insistiu na urgência de eleições.

"Assim como a democracia não é só votar, não há democracia sem voto. É preciso resgatar esse direito", disse também o ex-candidato presidencial Henrique Capriles, copartidário de Borges, após comparecer à sessão parlamentar na qualidade de convidado.

Segundo a lei, se Maduro tivesse perdido um referendo em 2016, eleições presidenciais deveriam ter sido convocadas, mas depois de 10 de janeiro - quando ele completa quatro anos de mandato -, só seria substituído por seu vice-presidente para completar o mandato que termina no começo de 2019.

Em sua intervenção, o novo presidente do Parlamento dirigiu-se especialmente aos membros da Força Armada Nacional Bolivariana (FNAB), que declarou lealdade a Maduro e ao legado do líder socialista Hugo Chávez.

"Irmãos da Força Armada, Nicolás Maduro está fora da Constituição e isto é inaceitável. Não é um chamado à rebelião (mas a que) se permita que o povo venezuelano vote", esclareceu Borges.

Em sua avaliação, Maduro está "brincando com fogo" e pediu aos militares: "Caminhemos juntos para uma pátria na qual o povo volte a nos ver com respeito".

Desafios gigantesCansados de uma elevadíssima inflação e da escassez de comida e remédios, 78,5% dos venezuelanos, segundo a Datanálisis, rejeitam a gestão de Maduro.

"Vivemos um momento injusto e vergonhoso", disse o novo chefe do Legislativo.

Mas a MUD não conseguiu capitalizar o descontentamento. Segundo a Keller y Asociados, seu apoio caiu de 45% para 38% nos últimos dois meses, devido a erros de estratégia, desconexão social e por iniciar um diálogo com o governo, rejeitado pela metade de seus 30 partidos e muitos seguidores.

A oposição pretendia conseguir na mesa de diálogo reativar o referendo ou uma antecipação das eleições presidenciais de 2018. Mas o chavismo descartou negociar estes temas, após o que a oposição congelou o processo e planeja não participar, em 13 de janeiro, da terceira rodada de diálogo, apesar de terem sido libertados 17 da centena de opositores presos.

"Os desafios da oposição são gigantescos", disse à AFP o analista Luis Vicente León, para quem a MUD deve entender que "sem unidade" e conexão social não mudará nada.

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