Último adeus a Mário Soares, artífice da democracia em Portugal

Lisboa, 10 Jan 2017 (AFP) - Milhares de portugueses participaram nesta terça-feira das homenagens fúnebres ao ex-presidente socialista Mário Soares, um dos principais arquitetos da democracia e que foi enterrado em Lisboa depois de uma cerimônia solene.

O caixão de Soares, coberto com a bandeira portuguesa, foi colocado ao lado ao da sua esposa Maria Barroso, que faleceu em 2015, ao final do dia.

Durante o funeral, um navio de guerra ancorado no estuário do Tejo disparou salvas de artilharia em honra aquele que também foi primeiro-ministro duas vezes.

"Este país nunca mais voltará a ver um político como ele. Ele desempenhou um papel decisivo em nossa história", declarou Rosa Pereira, uma auxiliar de enfermagem de 44 anos que participou da caravana fúnebre pelas ruas de Lisboa para despedir-se deste monumento da vida política, morto no sábado, aos 92 anos.

Os restos mortais do ex-chefe de Estado, expostos desde segunda-feira na capela ardente do mosteiro dos Jerônimos, no bairro de Belém, foram enterrados nesta terça-feira à tarde no cemitério dos Prazeres, próximo do centro da cidade.

Antes do cortejo fúnebre sair em procissão - passando pelo Parlamento e pela sede do Partido socialista - uma cerimônia foi realizada no claustro do monastério, lugar emblemático da história de Portugal.

Neste local, Soares, na época primeiro-ministro, assinou no dia 12 de junho de 1985 o tratado de entrada de Portugal à Comunidade Econômica Europeia, antecessora da União Europeia.

Personalidades políticas, amigos e admiradores, entre eles o rei Felipe VI da Espanha, o presidente Michel Temer e o presidente do Parlamento Europeu Martin Schulz, assistiram a cerimônia.

- Militante antifascista -Na cerimônia discursaram o atual presidente conservador de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e João Soares, filho de Mario Soares, que elogiou "o otimismo, a valentia, a determinação e audácia" do ex-chefe de Estado.

O primeiro-ministro socialista Antonio Costa, em visita oficial à Índia e que decretou três dias de luto nacional, participou por meio de uma mensagem de vídeo.

"Neste momento de luto nacional, quero expressar nosso afeto e nossa gratidão por tudo o que Mário Soares foi e por tudo que fez", declarou.

Militante antifascista, fundador do Partido Socialista português, ministro das Relações Exteriores, duas vezes chefe de governo, presidente da República de 1986 a 1996 e eurodeputado, Soares foi um personagem protagonista da democracia portuguesa durante 40 anos, e encarna em si mesmo a história recente de seu país.

Incansável animal político e advogado de formação, sofreu uma dura derrota na eleição presidencial de 2006, à qual se apresentou com mais de 80 anos.

Teve um papel particularmente decisivo após a Revolução dos Cravos de 1974, que colocou fim a 48 anos de ditadura, quando impediu as tentativas de militares próximos ao Partido Comunista de tomar o poder.

Freando o Partido Comunista de Alvaro Cunhal, Soares venceu as primeiras eleições livres organizadas em Portugal.

'Meu herói'"Mario Soares é meu herói. Há 43 anos o recebi em seu retorno do exílio e hoje o vejo partir com muita tristeza", explica Francisco Oliveira, de 63 anos, presente entre a multidão reunida em frente ao mosteiro dos Jerônimos.

Contemporâneo de François Mitterrand e Helmut Kohl, Mario Soares - que se definiu a si mesmo como "homem de convicções e de caráter" - também foi o grande artesão da integração de seu país no projeto europeu.

O ex-presidente seguia muito ativo e criticou de forma veemente as medidas de austeridade implementadas pelo governo anterior de centro-direita para sanear as finanças do país, que recebeu assistência financeira entre 2011 e 2014.

Após a morte de sua esposa, ele foi se retirando gradualmente da vida pública. Visivelmente enfraquecido por problemas de saúde, participou em julho de uma cerimônia organizada em sua homenagem pelo governo socialista, mas não tomou a palavra.

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