Mudança migratória com Cuba 'encaixa' na política de Trump, dizem analistas

Havana, 15 Jan 2017 (AFP) - Barack Obama encerrou a polêmica emigração ilegal cubana para os Estados Unidos, às vésperas de deixar a Casa Branca, mas é improvável que seu sucessor, Donald Trump, recue - opinam analistas consultados pela AFP.

"Não é de esperar que um presidente Trump que fez do 'pôr ordem na migração' a pedra fundamental de sua política vá reverter o grosso do que se fez", disse à AFP o acadêmico cubano Arturo López-Levy, da Universidade de Texas Valle del Río Grande.

Na quinta-feira, o presidente Obama sancionou uma ordem executiva, revogando a Política de "Pés Secos, Pés Molhados", a qual favorecia a emigração ilegal da Ilha para os Estados Unidos. O gesto foi bem-recebido por Havana. Ele também cancelou um programa migratório que beneficiava os médicos cubanos em outros países.

"Tudo o que se faz por meio de ordens presidenciais é legalmente reversível, a questão é se é reversível politicamente", comentou López-Levy.

Para o acadêmico cubano Jesús Arboleya, "é de esperar que Donald Trump veja com bons olhos" a decisão de Obama, porque seu "discurso a respeito do problema migratório é frear migração ilegal por todos os meios".

"O caos migratório não é bom para a sociedade norte-americana, nem para a sociedade cubana", declarou Arboleya à emissora local.

'Seu próprio remédio'"Não necessariamente uma política anticubana de Trump terá de reverter essa parte do tema migratório, muito pelo contrário", disse à AFP o diretor do Centro de Estudos Demográficos da Universidade de Havana, Antonio Aja.

Um dos principais especialistas em migração da Ilha, Aja alega que, ainda assim, a decisão de Obama se enquadra na lógica da política migratória esboçada por Trump. O republicano prometeu construir um muro com o México para frear a imigração ilegal.

O diretor do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade Internacional da Flórida, Jorge Duany, concorda em que a eliminação da política "se encaixa" com o discurso de Trump.

"Ao mesmo tempo, Trump tem de contar com os representantes eleitos da comunidade cubano-americana, a maioria dos quais criticou a eliminação da política de Pés Secos-Pés Molhados", mas pediram sua revisão "para se assegurar de que apenas os refugiados políticos poderão se beneficiar desse acordo", completou Duany.

Nesse sentido, López-Levy aponta com ironia que "Obama terminou por dar aos cubanos de direita e a Trump o próprio remédio que estavam pedindo, mas em seus próprios termos (de Obama)".

"Se Trump reverter a política de 'Pés Secos-Pés Molhados' pode deflagrar uma explosão migratória. Se cancelar o programa dos médicos, Cuba pode cancelar sua aceitação dos (ilegais) deportados", advertiu López-Levy.

Ainda segundo ele, embora a negociação de Obama com Cuba tenha deixado Trump em uma armadilha, "o mais racional é fazer o que é conveniente para os Estados Unidos, que é deixar o acordo tal como está em vigor".

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