Obama, um presidente que chora: um recurso invés de uma fraqueza

Paris, 18 Jan 2017 (AFP) - As lágrimas podem ser um trunfo na política. Barack Obama chorou muitas vezes em público durante seus dois mandatos, sem que que isso afetasse sua imagem. Será que veremos um dia Donald Trump ser ganhado pela emoção?

Durante seus oito anos como presidente, Obama chorou várias vezes em público. Em janeiro de 2016, as lágrimas rolaram por seu rosto ao lembrar o massacre na escola Sandy Hook de ensino fundamental e anunciar medidas para regulamentar o acesso a armas de fogo.

No início de janeiro, ele tirou o lenço ao homenagear sua esposa e filhas em seu discurso de despedida, em Chicago.

"O choro é associado a uma experiência emocional intensa. Está claro que Obama sentiu forte emoção nesses momento. E ele não teve medo de demonstrar isso", declarou à AFP Lauren Bylsma, professora assistente do departamento de psiquiatria de Pittsburgh, autora de vários estudos sobre as lágrimas.

"Em termos de personagem, o choro é associado a indivíduos com muita empatia", acrescentou.

E quanto a Trump? O que podemos antecipar de sua Presidência neste campo?

O bilionário, que toma posse na sexta-feira, "é, provavelmente, alguém emotivo no fundo de si mesmo", avaliou Judi James, autora de "The Body Language Bible".

"Mas ele assumiu a figura de macho dominante, e acho que teria que ir até as profundezas de seu ser para procurar essa emotividade", completou a especialista britânica.

"No entanto, chorar poderia ser uma coisa muito boa para ele (...) As pessoas esperam por um sinal mostrando sua humanidade", explicou.

"Se durante sua posse, puder derramar uma lágrima, as pessoas poderiam mudar de opinião em relação a ele rapidamente", disse. "Lágrimas podem ser poderosas", emendou.

O psicanalista francês Jean-Pierre Friedman, especialista em relações de poder, não imagina Donald Trump chorando em público. Aos 70 anos, "Trump é um velho caubói endurecido", disse. Isso também é "uma questão de geração". "Há 50 anos, dizia-se aos meninos 'você é um homem, homem não chora".

Trump também já ridicularizou as lágrimas daqueles que lamentaram sua vitória.

- 'O novo homem' -Nas últimas décadas, vários grandes líderes mundiais deixaram-se levar e choraram em público. Até mesmo o presidente russo, Vladimir Putin - que cultiva a imagem de homem forte - chorou no momento da sua reeleição, em 2012, ou ao ouvir o hino russo durante uma visita à Mongólia, em 2014.

Os ex-presidentes americanos Bill Clinton e George W. Bush também choraram várias vezes em público.

A época em que as lágrimas podiam afetar negativamente a imagem de um líder já passou. Analistas políticos acreditam que em 1972, as "lágrimas" do democrata Edmund Muskie (contestadas por seu comitê) quando respondia a ataques podem ter contribuído para a sua derrota nas primárias americanas.

"O choro pode mostrar uma forma de vulnerabilidade que alguns podem perceber como uma fraqueza. Mas não se sentir envergonhado de sua vulnerabilidade também pode ser considerado uma força", observou Lauren Bylsma.

"Algumas pesquisas sugerem que um homem que chora é muitas vezes percebido como mais amigável, mais próximo e de confiança que um homem que não chora", ressaltou.

É também necessário que as lágrimas sejam sinceras. "As pessoas sabem muito bem diferenciar lágrimas reais de simuladas", apontou Judi James.

Tudo também depende da causa. "Se as lágrimas são causadas por autopiedade ou raiva, as pessoas não vão gostar", acrescentou.

Na França, "os políticos choram quando perdem poder", disse Jean-Pierre Friedman, autor do livro "Du pouvoir et des hommes" (Do poder e dos homens, em tradução literal). "Os americanos estão na frente", emendou.

"Obama é um intelectual. As lágrimas o ajudam a descer de seu pedestal. É uma espécie de novo homem", avaliou Judi James.

Obama também sabe tocar as pessoas com suas palavras e fazer os outros chorarem. O vice-presidente Joe Biden foi incapaz de conter as lágrimas quando o presidente entregou-lhe de surpresa, no início de janeiro, a Medalha da Liberdade, a máxima condecoração civil americana.

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