A solidão dos idosos em uma Síria em guerra

Damasco, 23 Jan 2017 (AFP) - Sozinha e isolada em seu pequeno quarto de uma residência de idosos de Damasco, Naz Ashiti observa as fotografias de suas filhas exiladas há anos pela guerra, detendo-se em cada detalhe de seus rostos.

Deixar seus pais em um asilo de idosos era algo inconcebível para os sírios, em um país onde não se ocupar da família é considerado vergonhoso.

Mas seis anos de guerra destruíram famílias e obrigaram muitas a considerar esta opção.

"Vim porque minha casa ficou destruída e minhas filhas se exilaram em diferentes países", explica Naz Ashiti, uma mulher de 85 anos originária de Duma.

Esta cidade próxima a Damasco está nas mãos de rebeldes contrários ao presidente sírio, Bashar al-Assad, e cercada pelas forças do regime desde 2012.

Ashiti, de uma família abastada, é uma das 140 residentes de Dar al Saada (A casa da felicidade). Suas três filhas vivem na Jordânia, Alemanha ou no Curdistão iraquiano.

Todos os dias, Naz Ashiti lê ou escreve em seu diário, enquanto espera um telefonema de uma de suas filhas. Quando há eletricidade assiste televisão, com a esperança de ouvir boas notícias de Duma ou dos países onde suas filhas vivem.

"Vivíamos dignamente em nossa casa. Aqui, o serviço é excelente, mas me sinto humilhada pela solidão", reconhece à AFP. "Nunca pensei que passaria o resto da minha vida olhando as fotografias das minhas filhas, pensando no quanto sinto falta delas".

- Uma cama como refúgio -Os moradores de Dar al Saada pagam uma tarifa mensal de 110 euros pela alimentação, atendimento e uma cama em um quarto compartilhado com outras duas pessoas. Cada um é equipado com uma televisão, uma mesa e um aquecedor elétrico.

Um dos quatro andares do centro está reservado aos indigentes.

Antes do início da guerra, em 2011, a residência estava quase lotada, mas não recebia mais de um ou dois pedidos de entrada por mês.

Mas com a guerra - que deixou mais de 310.000 mortos desde 2011 - chegam pessoas da terceira idade sem família e há pedidos diários, explica a diretora-geral, Lamis al Hafar.

Apesar de seus 82 anos, a diretora percorre o centro de andador para supervisionar todos os detalhes, incluindo a quantidade de sal da comida.

"Devido aos problemas na Síria, muitos jovens foram obrigados a fugir e a deixar seus pais, que ficaram sozinhos, incapazes de cobrir suas necessidades", explica.

"Quando uma cama é liberada, me sinto triste e alegre ao mesmo tempo, sei que alguém nos deixou, mas estou feliz com o fato de a cama servir de refúgio para alguém que precisa", acrescenta Haffar. "Conseguir uma cama aqui se converteu em um dos últimos sonhos para muitos idosos".

- Separados pela morte -Na instituição, situada na parte oeste de Damasco, a maioria dos moradores não tem notícias de seus filhos.

Hasania, de 75 anos, distribui guloseimas aos seus amigos em Dar al Saada e pede que rezem por seu filho Ahmed, morto perto de Damasco em 2012.

"Dependia de Ahmed para tudo. Nunca pensei que chegaria o dia em que ele morreria, deixando-me sozinha", afirma.

Perto dela, Hamida al Hadad murmura versículos do Alcorão, passando as contas do rosário com os dedos. Está há dois anos sem ver seus filhos, que permaneceram na cidade sitiada de Madaya, a 40 km de Damasco.

"Estou doente e meu filho me levou ao hospital, em Damasco, dois dias antes do fechamento da estrada", explica a idosa de 85 anos. "Quando quis voltar, a estrada estava fechada e dormi na rua, até que um jovem me acompanhou a Dar al Saada".

Olha pela janela, tentando esconder suas lágrimas. "A guerra me separou dos meus filhos e netos, e acredito que morrerei sem voltar a vê-los", acrescenta. "Prefiro morrer com meus filhos a viver longe deles".

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