Duelo de duas esquerdas nas primárias socialistas francesas

Paris, 23 Jan 2017 (AFP) - Benoît Hamon, um socialista da ala crítica do partido e com um programa inovador, disputa a indicação presidencial do Partido Socialista francês com o ex-primeiro-ministro Manuel Valls, representante da esquerda do governo, dividida depois do impopular mandato de François Hollande.

Valls, de 54 anos, que se lançou na corrida após a retirada de Hollande, foi ultrapassado no domingo no primeiro turno da primária socialista por um outsider de 49 anos da ala de esquerda do partido e muito crítica sobre o balanço do governo.

A imprensa francesa enxergava neste resultado um duelo "de duas esquerdas" e a ilustração de um Partido Socialista profundamente dividido entre uma linha "utópica" e outra "hiper-realista".

O jornal Les Echos ressaltava uma "necessidade de renovação que se expressa mais uma vez, questionando ao mesmo tempo se "essa surpresa pode ser suficiente para reacender a luz na casa do PS".

O primeiro turno, com sete candidatos, mobilizou entre 1,6 e 1,7 milhão de eleitores, de acordo com estimativas iniciais.

Em novembro, mais de quatro milhões de pessoas votaram para designar o candidato da direita, o conservador François Fillon.

Em questão, uma forte decepção dos eleitores de esquerda frente a uma política considerada contrária aos seus valores: a proposta de privar da sua nacionalidade os franceses condenados por terrorismo, leis para liberalizar a economia e os direitos trabalhistas, o acolhimento mínimo dos refugiados...

"A vontade de virar a página é clara. Trata-se de olhar para o futuro", clamou nesta segunda-feira Benoît Hamon, que defende uma "renda básica universal" e ser "muito mais generoso em termos de direito de asilo".

'Promessas irreais'Com mais de 36%, Hamon já pode contar com o apoio do candidato que ficou em terceiro lugar, Arnaud Montebourg (17,6%), ele também muito crítico da política de François Hollande.

Manuel Valls (31%) apelou aos eleitores a fazer uma escolha no segundo turmo entre "um derrota certa" e uma "vitória possível" na eleição presidencial.

À espera do debate televisionado de quarta-feira à noite, Valls denuncia as "promessas irreais e impossíveis de financiar" de seu oponente. "Nunca a esquerda francesa enfrentou uma escolha tão clara", considerou nesta segunda-feira.

Declarações que tornam aleatória a união de dois candidatos em torno de um único após o segundo turno, o que é essencial para evitar um cenário de fracasso.

O vencedor da primária terá, certamente, muito trabalho a fazer para se impor.

Por ora, o segundo turno da eleição presidencial, em 7 de maio, parece se dirigir para um duelo entre François Fillon e a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, em meio ao crescimento dos movimentos populistas na Europa.

A líder da extrema-direita Marine Le Pen, fortalecida pelo Brexit e a chegada ao poder de Donald Trump, também prometeu neste domingo que 2017 seria "o ano do despertar dos povos da Europa continental", na França, Alemanha e Holanda.

Um terceiro homem corre por fora: Emmanuel Macron. Aos 39 anos, ex-ministro do governo socialista cavalga sozinho e desperta multidões em seus comícios com sua mensagem "nem direita nem esquerda", "progressista" e "pró-europeia".

E muitos analistas políticos consideram que o resultado do primeiro turno abriu caminho para Emmanuel Macron, que se apresenta pela primeira vez a um mandato e que aposta no desejo de renovação dos franceses.

"Os eleitores de Manuel Valls não se reconhecem no projeto político de Benoît Hamon, bem como os eleitores de Benoît Hamon não se reconhecem no programa Manuel Valls. Então, vamos acabar em uma síntese vacilante no final desta primária", considerou no domingo à noite Benjamin Griveaux, apoio de Emmanuel Macron.

Após se recusar a participar na primária, o furacão da extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon aparece em quarto nas pesquisas.

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