Gina Miller, na linha de fogo do Brexit

Londres, 23 Jan 2017 (AFP) - A britânica Gina Miller suporta há meses as ameaças de morte e insultos racistas por levar aos tribunais a pretensão do seu governo de ignorar o Parlamento no Brexit, e, embora confiante em uma vitória na terça-feira, também a teme.

"Acredito que a próxima semana vai ser terrível", disse à AFP poucos dias antes de o Supremo Tribunal dizer se a primeira-ministra britânica, Theresa May, pode iniciar o processo de saída da Europa sem consultar o Parlamento.

A máxima autoridade judicial deve se pronunciar na terça sobre o recurso de May a uma decisão anterior desfavorável.

Para muitos, Miller, uma empresária de 51 anos, é uma heroína. Mas para muitos outros, é a 'estraga festa' que procura invalidar a vontade popular de deixar a União Europeia manifestada no referendo de junho.

Quando apresentou a ação, alguns dias após o plebiscito, Miller esperava críticas, mas não o que veio a seguir. "Eu não esperava ter que mudar minha vida privada", confidenciou à AFP esta mãe de três filhos.

Os tabloides começaram a farejar seu passado, precisou contratar um guarda-costas, já não usa mais o transporte público e muitas vezes passa os fins de semana trancada com sua família em casa.

A maioria dos insultos que recebe são racistas, muitas vezes dizendo que Miller, nascida na então colônia britânica da Guiana, nem sequer é britânica.

"Coisas que eram consideradas inaceitáveis agora são aceitáveis", estimou, preparando-se para receber muitos mais insultos esta semana.

"Me chamaram de primata. Eu não sabia que vivíamos num lugar como este. Acho que se eu fosse um homem branco, teria sido mais fácil."

Forçando o governo a mostrar suas cartasEm um discurso em um clube privado no centro de Londres, que se tornou um refúgio para ela, Miller insistiu que não se arrepende de nada.

Não esconde sua oposição ao Brexit - como diretora de um fundo de investimento teme seu impacto econômico -, mas está ciente de que perdeu. "Isso não pode ser mudado".

A questão agora são os limites do poder executivo.

A primeira-ministra Theresa May acredita que tem o direito de invocar o artigo 50 do Tratado Europeu de Lisboa, início formal do processo de saída, sem consultar o Parlamento.

Num parecer em novembro, o Supremo Tribunal negou que May pudesse agir sem o consentimento do legislativo, e espera-se que confirme a decisão anterior na terça-feira.

"Se perdermos, vamos retroceder 400 anos e não acredito que os juízes vão fazer isso", considerou Miller.

"Se um governo agisse desta maneira, criaria um precedente. Você pode imaginar? Qualquer primeiro-ministro poderia tomar decisões no futuro em um escritório com quatro ou cinco ministros".

Sem sua ação judicial, ela acredita que o artigo 50 "teria sido invocado em outubro sem um plano, e ilegalmente. Então tenho que seguir em frente".

Seis meses depois de assumir o poder, May definiu na semana passada os seus objetivos para as negociações, prometendo controlar a imigração europeia e abandonar o mercado único europeu.

"Acho que minha demanda o forçou a mostrar suas cartas", disse Miller.

'Em frente, Gina!'Miller cresceu em uma família politicamente ativa - seu pai, Doodnaught Singh, era procurador-geral da Guiana - e já protagonizou uma campanha para que os investimentos financeiros fossem mais transparentes.

Ela considera que é seu dever falar quando os outros se calam.

"Tudo relacionado ao Brexit é tão emocional, que todo mundo tem medo de falar, e isso não é bom", explicou.

As mensagens de apoio recebidas reforçam a sua determinação.

"Um menino de 10 anos fez um desenho de mim com um emblema de super-herói dizendo: 'Em frente, Gina!'. Eu o guardo na minha mesa".

"Isso me dá força. Porque não sou invencível", concluiu.

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