Seis anos depois da 'Primavera Egípcia', a repressão dos ativistas

Cairo, 23 Jan 2017 (AFP) - Seis anos depois da revolta que expulsou Hosni Mubarak do poder, a frustração acompanha o dia a dia dos ativistas egípcios que, severamente reprimidos, têm dificuldades para conservar a esperança.

O regime do presidente Abdel Fatah al Sissi, ex-chefe do exército, é acusado por seus opositores de ter fechado o parênteses democrático aberto com a revolta de 2011.

Em um país afundado em uma grave crise econômica, Sissi, empossado presidente depois de destituir em 2013 seu antecessor, Mohamed Mursi, não tolera nenhum tipo de oposição.

"A situação é desoladora", suspira Esraa Abdel Fatah, ao passar pela praça Tahrir, epicentro daquela revolta que viu centenas de milhares de egípcios acamparem para conquistar em 2011 a saída de Mubarak após 30 anos no poder.

"Estou triste pelo sangue derramado em vão", lamenta esta militante de 38 anos, em referência aos centenas de manifestantes mortos pela repressão da revolta que começou em 25 de janeiro de 2011.

A juventude que havia participado da revolta atualmente está desiludida, como Ahmed, um farmacêutico de 32 anos.

"É um combate diário pela nossa sobrevivência", lamenta este pai de família que havia participado das manifestações de 2011 e que hoje busca emigrar a qualquer preço.

"A luta pela democracia e pelos direitos humanos se transformou em um combate diário para encontrar produtos básicos para minha família", diz.

- 'Apenas partir' -Há vários meses, os egípcios enfrentam inflação e escassez de produtos de primeira necessidade. Uma tendência agravada pelas medidas de austeridade adotadas pelo governo para obter um empréstimo de 12 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Antes estava disposto a morrer por este país, agora só quero ir embora", lança Ahmed.

"Há muita raiva contida nas pessoas" devido à situação econômica, afirma a cientista política May Mugib. "Mas, apesar disso, ninguém quer outra revolução, os egípcios estão cansados depois de uma revolta que não teve os resultados esperados", explica.

Nesta manhã de janeiro, Abdel Fatah, que há dois anos está proibido de deixar o território, acompanha uma decisão da justiça que congelou os bens de duas organizações não governamentais, assim como os de seus fundadores.

A decisão foi tomada no âmbito de uma vasta investigação sobre o financiamento estrangeiro da sociedade civil, que já levou a congelar os bens de várias ONGs e de famosos defensores dos direitos humanos.

Nos meses que se seguiram à destituição de Mursi, as autoridades perseguiram seus partidários islamitas. Centenas de manifestantes morreram pelas mãos das forças de ordem e outros milhares terminaram atrás das grades.

- 'Semiprisioneiro' -Mas a repressão se ampliou rapidamente para incluir a juventude laica e de esquerda, e dezenas de militantes terminaram na prisão por manifestações organizadas sem autorização.

"A revolução voltou à estaca zero", declarou Mozn Hassan, fundadora da organização Nazra para os estudos femininas, envolvida pelo congelamento de bens. "Devemos nos defender na justiça por acusações sem fundamento", acrescenta.

Este militante de 37 anos também é alvo há vários meses de uma proibição de deixar o território. Medidas que "se inscrevem no âmbito de uma ampla campanha de repressão contra as vozes críticas independentes", denunciaram recentemente a Anistia Internacional e a Human Rights Watch (HRW).

O movimento 6 de abril, um dos principais instigadores da revolta de 2011, foi proibido pelas autoridades. Um de seus fundadores, Ahmed Maher, acaba de cumprir três anos de prisão por confrontos à margem de uma manifestação. Encontra-se agora sob controle judicial.

"Sou um 'semi-prisioneiro'", ironiza o militante de 36 anos, que precisa passar todas as noites pela delegacia de seu bairro.

"Estamos esgotados", reconhece o fotojornalista Ahmed Gamal Ziada, que sai de dois anos de prisão após sua detenção à margem de uma manifestação que estava cobrindo.

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