Grão-Mestre da Ordem de Malta renuncia a pedido do papa Francisco

Roma, 25 Jan 2017 (AFP) - O Grão-Mestre da Ordem de Malta, Matthew Festing, aceitou renunciar ao cargo a pedido do papa Francisco, informou a organização, depois de um mês de confronto com a Santa Sé e uma polêmica sobre uma distribuição de preservativos.

"Na terça-feira à tarde, o Papa recebeu o Grã-Mestre e pediu a ele que renunciasse. Ele aceitou", afirmou um porta-voz da Ordem.

A Ordem de Malta - uma das instituições cristãs mais antigas que se tornou um Estado sem território - finalmente provou sua obediência ao Papa, evitando assim uma ruptura com a Santa Sé após mais de 900 anos de uma sólida relação.

A influente entidade conservadora, cujas origens remontam às Cruzadas, está presente em mais de 120 países administrando hospitais e ambulatórios, com 12.500 membros e 100.000 funcionários e voluntários.

Em todo o mundo, suas representações locais começavam a se preocupar com uma diminuição nas doações em razão da polêmica, principalmente na perspectiva da Jornada Mundial da Hanseníase, em 29 de janeiro, que é tradicionalmente um dia importante para angariar fundos, segundo uma fonte interna.

O caso teve início em 6 de dezembro com a exoneração do alemão Albrecht von Boeselager, número dois da ordem, por ter tolerado a distribuição de preservativos a pessoas com risco de contrair o vírus da aids.

Oficialmente, Boeselager, grande chanceler da Ordem de Malta desde 2014 - o equivalente ao posto de ministro do Interior e das Relações Exteriores - foi destituído por "problemas graves".

- A sombra do cardeal Burke - O preservativo continua a ser um tabu na Igreja católica, que rejeita todo método de contracepção, mesmo se o papa Francisco tenha feito um apelo em novembro "a um comportamento responsável" diante da aids.

A recusa de Von Boeselager de apresentar sua demissão quando solicitada pelos seus superiores, entre eles o cardeal ultraconservador americano Raymond Burke - um dos adversários internos de Francisco -, é uma das origens da controvérsia.

Burke, considerado um grande crítico do papa argentino, foi afastado do Vaticano ao ser nomeado representante do papa na Ordem de Malta e, desde então, lidera a batalha contra o pontificado de Francisco.

O cardeal faz parte do grupo que pediu a Francisco que corrija seus "erros doutrinários", pedido ignorado até agora pelo pontífice.

Segundo fontes da Ordem, o caso teria rendido, sobretudo, em razão da batalha da ala conservadora da Igreja contra o Papa.

- Um mês de disputas - A batalha ganhou um novo capítulo quando o irmão de Albrecht von Boeslager foi nomeado ao conselho administrativo do Banco do Vaticano (IOR), em plena restruturação após uma série de escândalos. "O timing foi extremamente significativo", segundo uma fonte.

O Grã-Mestre da Ordem de Malta, Matthew Festing, famoso por sua forte personalidade, teria agido sob influência do agressivo cardeal Burke ou simplesmente defendido sua soberania?

Em 21 de dezembro, o Papa nomeou uma comissão de investigação de cinco membros encarregada de esclarecer a demissão do alemão.

Mas, em um comunicado, o Grão-Mestre se negou categoricamente a cooperar com a comissão de investigação.

Na ocasião, a entidade religiosa justificou sua posição afirmando que deveria "proteger sua própria soberania" diante do que considerou uma ingerência do Papa, que ordenou que a comissão investigasse a recente saída do ex-chanceler da Ordem Albrecht Freiherr von Boeselager.

Apesar de a entidade ser considerada como um Estado e contar com seu próprio passaporte e corpo diplomático, para a Santa Sé continua sendo vista como uma organização religiosa que deve obediência e respeito ao papa.

Neste cenário, a Santa Sé chegou a emitir um comunicado apoiando sua comissão.

O britânico Matthew Festing, que ocupava um cargo de caráter vitalício, ainda deve se reunir com o conselho soberano para que sua demissão seja efetiva.

A Ordem de Malta foi fundada com o nome de Cavaleiros Hospitalários em Jerusalém, em 1048, como uma comunidade de instituições médicas encarregada de tratar doentes, antes de ser reconhecida pelo papa em 1113.

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