Monges de aluguel em um Japão que perde suas raízes religiosas

Funabashi, Japão, 1 Fev 2017 (AFP) - A cerimônia é convencional: incenso, sutras e tilintar de sinos. O monge budista, porém, não oficia em um templo, mas na casa de um particular que o "alugou" através da internet.

"Há muitos templos nesta área, mas eu não sabia quem contatar", conta o cliente, sob anonimato, que contratou o monge para o aniversário de um ano da morte de sua mãe.

Ele procurou na internet e descobriu uma empresa, Minrevi, especializada no aluguel de monges. Um serviço fúnebre de 30 minutos tem uma tarifa fixa de 35.000 ienes (pouco mais de 300 dólares).

Com uma simples ligação, Kaichi Watanabe foi à sua casa.

"Um monge desempenha o papel de fazer descobrir a mensagem de Buda, mas hoje cada vez menos gente vem bater à nossa porta para obter este ensinamento", afirma este religioso, de 41 anos, atraído pela ideia de ir ao encontro de seus fiéis.

Para muitos japoneses, a religião - o xintoísmo ou o budismo -, é uma formalidade sazonal que lhes leva ao santuário ou ao templo nos grandes momentos da vida e nas festividades tradicionais.

Minrevi começou a oferecer este serviço em maio de 2013, seguindo os passos do grupo de grande distribuição Aeon. A demanda está crescendo, enquanto o vínculo entre as pessoas e os templos locais, que outrora tinham um papel central na comunidade, se perde.

"Mercantilização das doações"Os usuários apreciam a transparência tarifária deste esquema, em oposição ao sistema opaco de doações ("ofuse") praticado nos templos.

"Para nós, clientes, há um lado tranquilizador e de fácil acesso, porque nos apresentam uma tabela de preços clara", afirma o homem que recorreu aos serviços de Minrevi.

No modelo tradicional, as famílias devem fazer várias doações no valor de sua escolha, durante mais de uma década. Com esse dinheiro, os templos realizam obras caras de renovação em seus edifícios, mas os fiéis lamentam que se dê prioridade à captação de recursos em detrimento do acompanhamento espiritual.

Chiko Iwagami, da Federação Japonesa de Budismo, reconhece que alguns monges solicitam inapropriadamente quantidades específicas. "Isto ignora o espírito das doações", lamenta.

Da mesma forma, ele também critica os monges de aluguel. "É uma mercantilização das doações, é extremamente lamentável", considera.

Para Masashi Akita, vice-presidente da Minrevi, a religião e os negócios são compatíveis.

"Ao propor uma plataforma" que conecta monges e particulares, "não fazemos mais do que responder a uma necessidade existente", diz, ressaltando o sucesso da sua companhia, que em 2016 contou com 700 monges para 12.000 pedidos (um aumento de 20% por ano).

"Fiquei chocado quando soube que as pessoas não sabiam como contatar um monge", disse. "Fiquei com vontade de fazer essa ponte".

Em vez de se escandalizar, "as autoridades budistas devem se perguntar como administrar sua paróquia com a receita em queda. Mas parece que eles não querem encarar a realidade", opina Kenji Ishii, professor da Universidade Kokugakuin.

Os templos se esvaziam à medida que a população envelhece e as zonas rurais perdem população. Cerca de um terço dos 75.000 templos atuais podem fechar até 2040 por falta de fiéis, alertou Ishii.

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