O sonho da premiê britânica de um eixo Washington-Londres em perigo

Londres, 1 Fev 2017 (AFP) - A aspiração da primeira-ministra britânica, Theresa May, de iniciar uma relação privilegiada com Washington que compense a perda da União Europeia se converteu em um pesadelo devido a Donald Trump.

"Trump apareceu como uma fada madrinha, um grande presente, enorme", declarou, entusiasmado sobre o novo presidente americano, um deputado pró-Brexit à revista Spectator.

May se tornou a primeira líder estrangeira a ser recebida na Casa Branca pelo magnata da construção, e ambos aparentaram uma grande sintonia, sorrindo e chegando a dar as mãos brevemente durante um passeio.

"Os opostos se atraem", disse May quando foi perguntada sobre como esta política rigorosa, filha de um vigário, e o exuberante magnata da construção iriam se entender. Na mente de muitos vieram à tona as lembranças de Ronald Reagan e Margaret Thatcher.

Mas quando May deixou a Casa Branca, Trump soltou como uma bomba seu decreto proibindo a entrada de cidadãos e refugiados de sete países muçulmanos.

E a demora em condenar a medida de May, que rejeitou em até três ocasiões se posicionar em uma coletiva de imprensa, lhe valeu críticas, até que finalmente classificou a ação do americano de "equivocada e divisiva".

Mas May não pode prescindir de Trump neste momento, em meio ao risco de irritar seus ainda sócios europeus, que encararam a visita a Washington como "um sinal de debilidade, mais que de força", sentenciou uma fonte diplomática europeia que pediu o anonimato.

"Não há dúvida de que um acordo comercial com os Estados Unidos pode criar a ilusão de um pouso suave do Brexit, então é politicamente muito importante para Theresa May garantir um", explicou à AFP Brian Klaas, professor de política comparada da London School of Economics.

"Há uma questão, no entanto", prosseguiu Klaas, "que é, até onde o Reino Unido está disposto a chegar sem sacrificar o que professa para alcançar tal acordo?".

- Reagan-Thatcher ou Blair-Bush -"May ainda não está atada a ele, mas começou a ficar. Pode ser desfeito, mas agora é difícil se distanciar da foto de ambos de mãos dadas sem pronunciar palavras muito duras", disse Klaas.

Mas, além dos gestos, não será fácil para Londres arrancar um acordo comercial dos Estados Unidos, advertiu Iain Begg, do Instituto Europeu da LSE.

"O problema é que os Estados Unidos têm um déficit comercial com o Reino Unido, e com Trump dizendo 'Estados Unidos primeiro, Estados Unidos primeiro, Estados Unidos primeiro', a ideia de um bom acordo comercial (para Washington) seria um que recuperasse o equilíbrio" na balança comercial, disse Begg.

"Acredito que uma coisa que Downing Street subestimou é que não basta alcançar um acordo comercial, é preciso ser um bom acordo", acrescentou.

Mais que lembrar os velhos bons tempos de Thatcher e Reagan, a atual situação lembra os de Tony Blair e George W. Bush e a invasão do Iraque, onde o primeiro-ministro britânico se lançou nos braços de Washington.

"Blair enfrentava o dilema de se alinhar com a oposição" à invasão "que vinha da Europa e escolheu apoiar os Estados Unidos. Isso se parece com o que May está fazendo ao não condenar Trump", disse Begg. "É o dilema entre algo que os europeus condenam e algo que Washington encara como um interesse imediato".

Nada representa mais a aposta de May que seu convite a Trump para que realize uma visita de Estado neste ano, quando os ocupantes anteriores da Casa Branca demoraram muito mais para ganhar o direito de dormir no Palácio de Buckingham.

Cerca de 1,8 milhão de pessoas assinaram um manifesto exigindo que o nível da visita seja rebaixado, para evitar que a rainha Elizabeth II dispense as mais altas honras protocolares a um hóspede tão polêmico.

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