Merkel se reúne com presidente turco em clima de forte tensão

Ancara, 2 Fev 2017 (AFP) - A chanceler alemã, Angela Merkel, desembarcou nesta quinta-feira na Turquia, em sua primeira visita ao país depois da tentativa frustrada de golpe de Estado de julho, em um momento de tensão entre Berlim e Ancara, interlocutor chave da União Europeia (UE) na crise migratória.

Em sua coletiva de imprensa conjunta com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, falou de suas preocupações a respeito do estado da liberdade de expressão na Turquia.

Merkel também disse ter compartilhado sua preocupação com a situação da liberdade de imprensa na Turquia e as dificuldades encontradas pelos correspondentes alemães para obter visto de imprensa no país.

"A separação dos poderes e a liberdade de expressão devem ser garantidas" na revisão constitucional desejada por Erdogan e submetida a um referendo em abril, ressaltou Merkel.

A chanceler alemã considerou igualmente que o referendo na Turquia deve ser supervisionado por uma delegação da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Por sua vez, Erdogan varreu as críticas de seus adversários turcos, que temem um apagamento da separação de poderes caso a reforma constitucional, que reforça consideravelmente suas prerrogativas, seja aprovada.

"Isso não tem absolutamente nenhum fundamento (...) Há um órgão legislativo, um executivo, bem como um judiciário", afirmou Erdogan. "Está fora de questão acabar com a separação de poderes", insistiu.

A viagem de Merkel à Turquia ocorre num momento em que as relações entre Ancara e Berlim estão fragilidades, principalmente desde a tentativa fracassada de golpe em julho do ano passado.

Os dois líderes também discutiram o pacto migratório concluído em março entre a Turquia e a União Europeia, a situação na Síria e no Iraque, bem como as relações comerciais, segundo Erdogan.

Merkel deverá se reunir ainda nesta quinta-feira com o primeiro-ministro, Binali Yildirim, e opositores.

Merkel deve abordar, além do acordo UE-Turquia, temas como a luta contra o terrorismo, o Chipre e as relações turco-europeias.

A relação entre Turquia e Alemanha, dois pilares da Otan, sofreram um abalo depois da tentativa de golpe de Estado contra Erdogan, que em seguida iniciou um expurgo no funcionalismo público, justiça e Forças Armadas, o que preocupa a Europa.

Autoridades alemãs pediram diversas vezes que a Turquia respeite o Estado de direito.

Mais de 43.000 pessoas foram detidas e mais de 100.000 suspensas ou demitidas desde julho no país.

A Turquia acusa a Alemanha de abrigar "terroristas" por se negar a extraditar supostos golpistas e membros de organizações consideradas ilegais, como o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e grupos de extrema-esquerda.

Desde a tentativa de golpe, o número de pedidos de asilo de cidadãos turcos passou de 1.700 em 2015 a 5.700 em 2016.

Entre os pedidos de asilo figuram 40 militares turcos da Otan, segundo a imprensa alemã.

O governo turco fez um apelo para que a Alemanha "pense cuidadosamente" e rejeite o pedido.

A viagem de Merkel acontece a poucos meses de eleições importantes nos dois países, legislativas na Alemanha e um referendo constitucional na Turquia, onde Erdogan aspira instaurar um regime presidencialista.

As legislativas de setembro na Alemanha devem ter os migrantes como um dos temas centrais da campanha.

A Alemanha tem três milhões de cidadãos de origem turca.

Outro tema de tensão entre Alemanha e Turquia envolve o influente jornalista turco Can Dündar, que fugiu da Turquia para morar em Berlim, onde criou um site com notícias críticas ao poder turco.

bur-gkg/fp

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