Canadá homenageia vítimas de ataque à mesquita em Québec

Montreal, 3 Fev 2017 (AFP) - Com a imagem de unidade nacional e do multiculturalismo canadense em torno do primeiro-ministro, Justin Trudeau, as três vítimas do ataque à mesquita de Québec foram homenageadas nas cerimônias fúnebres realizadas nesta quinta-feira (2), em um complexo esportivo de Montreal.

Geralmente reservada para partidas de hóquei, esporte nacional, a pista de patinação abriu suas portas hoje pela manhã para um grande público de cerca de cinco mil pessoas, assim como para vários líderes políticos e religiosos.

"É uma dor difícil de expressar, está no coração", disse à AFP o argelino Mohamed Lemdani, que acompanhou a cerimônia.

"Todos somos pais de família, que chegamos ao Canadá para trabalhar e ser parte de uma sociedade multicultural, acrescentou Lemdani.

No início da homenagem, o xeque Masaad El beltaji recitou versos do Alcorão diante de uma multidão formada por quebequenses lado a lado com canadenses de coração, muçulmanos, cristão, judeus.

"Foi todo um país que foi abalado por esse ataque brutal e de ódio, mas nesses momentos sombrios nosso país está unido e se mostra solidário", declarou o premiê Trudeau, acompanhado de líderes políticos unidos frente à tragédia.

"Não à violência, não à intimidação, ao racismo e à xenofobia", afirmou Philippe Couillard, chefe de governo da província francófona de Québec.

"Saibam que estão em casa", disse ele à comunidade de muçulmanos de 1,1 milhão dos 36 milhões de habitantes no Canadá.

Algumas horas antes dessa homenagem, a mesquita Khadijah, situada em um bairro do centro de Montreal, foi vandalizada. Além de jogarem ovos contra a instituição, a fachada teve uma janela quebrada e foi pichada, relatou o deputado Marc Miller. A Polícia abriu uma investigação.

"Acabo de confirmar que uma mesquita em Montreal acaba de ser vandalizada! Vamos todos condenar esse ato de ódio!", tuitou o deputado, que participou da cerimônia fúnebre desta quinta-feira.

- Repatriados para Argélia e TunísiaOs dois argelinos, Khaled Belkacemi, de 60 anos, e Abdelkrim Hassan, de 41, estavam no domingo à noite na mesquita de Québec para rezar, quando um estudante canadense de 27 anos atirou contra os 50 fiéis presentes.

Seis pessoas morreram, e oito ficaram feridas pelos disparos do jovem, que se entregou sem resistência à Polícia uma hora depois.

Após a cerimônia, os corpos dos três canadenses com dupla nacionalidade serão repatriados para Argélia e Tunísia, seus países de nascimento.

Belkacemi, pai de duas crianças, era professor na faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Laval, em Québec.

Pai de três filhas - de 10, 8 anos e um ano e três meses -, Hassan trabalhava para o governo de Québec como programador. Havia chegado ao Canadá em 2010.

Boubaker Thabti, de 44, era funcionário de uma empresa agroalimentícia e morava em Québec desde 2011. Originário de Tataouine, sul da Tunísia, era pais de dois meninos de 11 e três anos.

Para o Canadá, essa tragédia significa uma catástrofe cultural. Elogiada e defendida com orgulho, a Carta Canadense dos Direitos e das Liberdades pouco esconde as fragilidades de uma sociedade em que movimentos racistas já não temem aparecer publicamente na província francesa de Québec.

Durante os funerais, Justin Trudeau defenderá mais uma vez a imagem de um país acolhedor, aonde chegaram, muitas vezes sem nada, 40 mil refugiados sírios há pouco mais um ano.

Um segundo funeral está previsto para sexta-feira (3), também em Québec, para as outras três vítimas, entre elas os guineano-canadenses Mamadou Tanou Barry, de 42, e Ibrahima Barry, de 39.

A sexta vítima vivia há 30 anos em Québec. De origem marroquina, Azzeddine Soufine, de 57, tinha uma loja de alimentos próximo à mesquita de Sainte-Foy.

Com uma comunidade de 6.500 pessoas declaradas muçulmanas, Québec não tem um cemitério específico para os adeptos dessa religião. O mais próximo fica em Montreal, a 250 quilômetros.

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