Governo da Colômbia e guerrilha do ELN iniciam diálogos de paz

Sangolqui, Equador, 8 Fev 2017 (AFP) - O governo da Colômbia e o Exército de Libertação Nacional (ELN, guevarista), a última guerrilha ativa no país, abriram nesta terça-feira, no Equador, diálogos de paz para por fim a um conflito armado de mais de meio século, o mais longo e sangrento das Américas.

Depois de três anos de contatos secretos e vários meses de atraso, delegados do governo de Juan Manuel Santos e do ELN instalaram a mesa de negociações na Fazenda Cashapamba, uma propriedade dos jesuítas a 30 km da capital equatoriana, ante representantes dos avalistas Brasil, Equador, Chile, Cuba, Noruega e Venezuela.

"Estamos diante da oportunidade de, por fim, virar a página da guerra", disse o chefe das negociações do governo, Juan Camilo Restrepo.

Com a assinatura da paz, em novembro, com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o ELN, que pegou em armas em 1964, é a única guerrilha ativa do país, com 1.500 combatentes e milhares de milicianos, segundo cifras oficiais.

"Assistimos a estas conversas com a convicção de que devemos mudar o que tiver que mudar com tal que se abram as portas a uma democratização do país que dê à Colômbia uma vida digna", afirmou, por sua vez, Pablo Beltrán, nome de guerra de Israel Ramírez, chefe da delegação do ELN.

As discussões começam quarta-feira a portas fechadas, segundo fontes da chancelaria do Equador, onde serão realizadas a primeira e a última rodada de negociações. O restante está previsto nos outros países avalistas.

Renunciar ao sequestroO governo aproveitou a abertura das conversações para abordar o delicado tema do sequestro de pessoas por parte da guerrilha guevarista, que manteve em suspenso o início dos diálogos.

"Quero aproveitar esta ocasião para convidar o ELN a dar hoje a melhor notícia aos colombianos com sua renúncia pública ao sequestro", disse Restrepo. "Sem esta decisão de parte do ELN, será muito difícil avançar na construção de acordos", acrescentou.

A mesa devia ter sido instalada em outubro, mas foi adiada pela exigência de Santos de que fosse libertado um ex-congressista do ELN, mantido refém desde abril, e da guerrilha de que o governo indultasse dois rebeldes presos e nomeasse outros dois facilitadores de paz.

A entrega do militar Fredy Moreno Mahecha, que o ELN havia capturado em 24 de janeiro no nordeste da Colômbia, reforçou a confiança no processo. "Gera um bom ambiente", declarou à AFP, em Quito, o senador de esquerda Iván Cepeda, facilitador dos diálogos com as Farc.

"Se não for bem gerenciado, o tema do sequestro pode tornar inviável a mesa de negociação", advertiu Carlos Arturo Velandia, ex-líder do ELN, nomeado meses atrás facilitador da paz por Santos.

Assumir a "responsabilidade"O ELN, por sua vez, pediu ao governo que assuma sua responsabilidade na conflagração interna que dessangrou a Colômbia e envolveu guerrilhas, paramilitares e forças do Estado e deixou 260 mil mortos, 60 mil desaparecidos e 6,9 milhões de deslocados.

"Estamos dispostos a assumir a responsabilidade pelos atos ocorridos durante o conflito. E esperamos que os líderes da outra parte façam o mesmo. Sem esta assunção de responsabilidades, não vamos entregar a verdade completa aos milhões de vítimas colombianas", disse Beltrán.

Segundo o cientista político Frédéric Massé, o processo com o ELN "se anuncia difícil" e diferente do que se desenvolveu durante quatro anos em Cuba com as Farc.

"O ELN tem reivindicações um pouco mais fundamentalistas que as Farc", disse este professor da Universidade Externado de Bogotá. "Para o ELN, é a sociedade que deve negociar", acrescentou.

A "participação da sociedade civil na construção da paz" é precisamente um dos seis pontos da agenda, que também inclui os de "democracia para a paz", "transformações para a paz", "vítimas", "fim do conflito armado" e "implementação".

Desde o sábado em Bogotá e desde a terça-feira no centro de Quito, organizações sociais se reúnem na chamada Mesa Social para a Paz para dar ideias ao diálogo.

No entanto, segundo consulta divulgada nesta terça-feira na Colômbia, 61,2% dos entrevistados não acreditam nas intenções do ELN de alcançar um acordo de paz

"Quero crer que nesta oportunidade o ELN tem a decisão de abandonar a violência. Por nossos filhos, tomara que seja assim", tuitou o ministro do Interior colombiano, Juan Fernando Cristo, cujo pai foi assassinado pelo ELN em 1997.

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