Departamento de Estado em silêncio enquanto Trump domina política externa

Washington, 8 Fev 2017 (AFP) - Um secretário de Estado invisível, nenhuma coletiva de imprensa, uma rebelião de diplomatas. O Departamento de Estado americano se mantém em silêncio há duas semanas, enquanto o presidente Donald Trump monopoliza a política externa.

O famoso Ministério das Relações Exteriores, criado em 1789, tem à sua frente desde 1º de fevereiro seu 69º secretário de Estado, que substituiu John Kerry. Mas o ex-presidente da ExxonMobil Rex Tillerson, novato na política, está trancado há quase uma semana em seu escritório no sétimo andar do gigantesco edifício "Foggy Bottom", no sul de Washington.

À margem de um primeiro discurso orientado para o consenso na última quinta-feira diante de seus dois mil funcionários, Tillerson não falou mais em público.

Apesar de este engenheiro do Texas de 64 anos ter elogiado a "responsabilidade" e a "honestidade" de seus 70 mil diplomatas, funcionários e contratados espalhados em mais de 250 embaixadas e consulados, nada falou sobre as prioridades diplomáticas da primeira potência mundial.

As poucas entrevistas e conversas por telefone com seus homólogos estrangeiros foram apenas objetos de breves relatórios. Sua agenda semanal oficial menciona somente "reuniões no Departamento de Estado", sem dar mais detalhes.

O fluxo ininterrupto de comunicados sobre praticamente qualquer episódio minimamente relevante no cenário internacional também parou.

Situação incômodaA imprensa tampouco conta, desde 19 de janeiro, com os relatórios do porta-voz do Departamento de Estado, uma fonte diária transmitida ao vivo na televisão, muito seguida nas redes sociais e que há décadas permite à diplomacia americana dar sua opinião sobre a crise e os conflitos no planeta.

O porta-voz de John Kerry, John Kirby, saiu junto com seu ministro, apesar de seu adjunto, Mark Toner, um diplomata de carreira que trabalhou durante anos na administração de Obama, ter se mantido no cargo. Mas não se sabe quando serão retomadas as coletivas de imprensa. "Continuamos trabalhando com a Casa Branca para ver como retomaremos os relatórios diários o quanto antes", falou à AFP.

De fato, é na Casa Branca e no Conselho de Segurança Nacional onde é elaborada a política exterior dos Estados Unidos. E a presidência de Trump não escapará desta regra.

O 45º presidente dos Estados Unidos, eleito com um programa nacionalista, protecionista e isolacionista, tem polemizado em diversos contextos, ainda que os contornos de sua diplomacia continuem sendo vagos. Conversou por telefone com vários chefes de Estado e de governo, entre eles seu homólogo russo, Vladimir Putin, com quem tenta uma aproximação.

Mas Donald Trump atiça também as tensões internacionais, colocando Rex Tillerson em uma situação incômoda.

O presidente aumenta as declarações polêmicas, em geral pelo Twitter, contra países rivais ou adversários de Washington - China, Coreia do Norte e Irã - mas também contra aliados ou sócios comerciais, como Austrália, México e Alemanha.

"Insurreição" burocrática O presidente também provocou uma "insurreição" sem precedentes no Departamento de Estado com seu decreto anti-imigração que congela a entrada de cidadãos de sete países muçulmanos e refugiados. O texto, entretanto, foi suspenso pela Justiça.

Durante a "insurreição" burocrática, segundo a expressão de um funcionário, mil diplomatas considerados progressistas assinaram um memorando interno "dissidente", no qual denunciam este decreto sobre migração. Esta rebelião diplomática não impede que o Departamento de Estado funcione, mas funcionários de alto escalão admitem que o trabalho é feito de forma mais lenta.

O ex-porta-voz da diplomacia americana Jeffrey Rathke recorda que durante as transições entre as administrações em 2001 (de Bill Clinton para George W. Bush) e 2009 (de Bush para Obama), "o Departamento de Estado retomou as coletivas de imprensa poucos dias depois da posse" do presidente em 20 de janeiro.

E o relatório diário do porta-voz da Casa Branca, focado na política interna, não pode substituir o do Departamento de Estado, declara à AFP Rathke, analista do Center for Strategic and International Studies (CSIS).

"A cada dia há muitos temas, menores ou maiores, em todas as partes do mundo, que são de interesse dos Estados Unidos. Não tratá-los publicamente supõe impedir de influenciar sobre eles", lamenta o ex-diplomata.

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