Governo da Colômbia e ELN começam as negociações de paz

Sangolqui, Equador, 8 Fev 2017 (AFP) - O governo da Colômbia e a última guerrilha ativa do país, o ELN, iniciaram nesta quarta-feira, a portas fechadas no Equador, um esperado acordo de paz, após a cerimônia de abertura do processo na terça-feira.

"Vamos negociar com seriedade e celeridade. Esperamos que o ELN compreenda que estes são tempos de paz. E que tenha a lucidez de não deixar a paz se esvair. A Colômbia espera por isso", escreveu pela manhã o chefe negociador do governo, Juan Camilo Restrepo.

Segundo fontes do governo da Colômbia, as negociações começaram às 09H30 locais (12H30 de Brasília) na fazenda Cashapamba, uma propriedade dos jesuítas a 30 km de Quito.

"A ideia é que na reunião de hoje sejam definidas muitas coisas", assegurou, sem dar mais detalhes.

A AFP constatou a chegada ao local de quatro caminhonetes escoltadas pela polícia do Equador, pouco depois da hora prevista.

As partes não informaram qual será a dinâmica das negociações ou sua duração.

No Equador ocorrerão a primeira e a última etapa das negociações. As outras deverão ser realizadas nos outros países avalistas.

Na terça-feira à tarde, depois de três anos de contatos secretos e vários meses de atraso, representantes do governo e da guerrilha, liderada por Pablo Beltrán, abriram formalmente as negociações em uma sóbria cerimônia nesta elegante fazenda em Sangolquí, diante de mais de 60 meios de comunicação nacionais e internacionais.

E disseram que, de uma agenda de seis tópicos, iniciarão com dois temas de forma simultânea: "as dinâmicas e ações humanitárias" e "a participação da sociedade da construção da paz".

"Paz duradoura"Nesta quarta-feira continuavam sendo feitas as comemorações da comunidade internacional pelo início formal deste processo com o qual a Colômbia buscar pôr fim a mais de meio século de guerra interna e alcançar a "paz completa", após o acordo alcançado em novembro com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

"Resolver este conflito é essencial para conseguir uma paz integral na Colômbia, salvar vidas e promover o desenvolvimento sustentado", disse em um comunicado um porta-voz do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres.

A União Europeia (UE) pediu às duas partes que "intensifiquem os esforços, com o espírito de responsabilidade mútua e de compromisso" para chegar ao acordo, enquanto o governo espanhol considerou que a instalação da mesa "assenta as bases de uma paz estável e duradoura na Colômbia para poder fazer frente aos desafios do futuro".

Na curta cerimônia de abertura, diante de representantes dos países avalistas como Equador, Brasil, Chile, Cuba, Noruega e Venezuela, e de 150 convidados, o governo pediu aos rebeldes o fim do sequestro de pessoas por parte da guerrilha, que manteve em suspenso o início das conversas "para poder avançar nos acordos".

O presidente colombiano e vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Juan Manuel Santos, advertiu que "este não será um processo de paz 'express', mas tampouco de discussões intermináveis".

Entretanto, o Exército de Libertação Nacional (ELN) pediu ao governo que assuma sua "responsabilidade" na conflagração interna que atingiu a Colômbia e envolveu guerrilhas, grupos paramilitares e forças estatais, deixando 260 mil mortos, 60 mil desaparecidos e 6,9 milhões de deslocados.

"Firmes em suas posições""No discurso de Beltrán, o ELN se reconhece como algoz e vai pedir perdão, e pede ao Estado e aos demais que também peçam perdão. Isso é um passo a frente", explicou à AFP Ariel Avila, da Fundação Paz e Reconciliação.

Para Frédéric Massé, analista político da Universidade de Externado, em Bogotá, "a reunião convida a um otimismo moderado porque, apesar do tom apaziguador das declarações, as duas partes se mantêm firmes em suas posições".

A instalação da mesa com o ELN, que começou a atuar em 1964 e é a única guerrilha ativa do país com 1.500 combatentes e milhares de milicianos, coincide com a implementação do acordo com as Farc, que demorou quatro anos para ser assinado.

Mas as duas partes insistem que os dois processos são independentes, pois trata-se de duas organizações distintas: o ELN tem uma estrutura federada e conta com uma maior base social dos que as Farc, cuja estrutura era mais verticalizada e teve maior capacidade de fogo.

Nas negociações de paz, as Farc deram uma ênfase maior ao desenvolvimento agrário e a repartição das terras, enquanto o ELN se concentra na participação da sociedade nos diálogos.

"O ELN tem reivindicações um pouco mais fundamentalistas do que as Farc (...), quer mudanças muito mais profundas. Não se apresenta como um representante do povo, mas como um mediador", explicou Massé, especialista em conflito armado.

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