Governo da Venezuela qualifica como agressão sanção dos EUA a vice

Caracas, 14 Fev 2017 (AFP) - O vice-presidente da Venezuela, Tarek El Aissami, rejeitou nesta terça-feira as sanções dos Estados Unidos aplicadas contra ele por tráfico de drogas, classificando-as de "agressão miserável e infame", pondo fim à trégua que o governo de Nicolás Maduro deu ao presidente americano, Donald Trump.

Com El Aissami sentado ao seu lado, em rede de rádio e televisão, Maduro fez nesta terça-feira uma defesa veemente do funcionário por sua luta contra o tráfico de drogas.

"É uma agressão que a Venezuela responderá passo a passo com equilíbrio e contundência", disse Maduro, ao ordenar à chancelaria que entregue uma nota de protesto e exija de Washington que se "retrate e peça desculpas públicas" ao vice-presidente.

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos acusa o vice-presidente de facilitar, proteger e monitorar carregamentos de drogas da Venezuela com destino ao México e Estados Unidos, enquanto era ministro do Interior (2008-2012) e governador do estado de Aragua (2012-2017). Mas Maduro assegurou que, como ministro, El Aissami conseguiu a captura de 102 chefões e a extradição de 21 aos Estados Unidos, o que lhe rendeu cumprimentos daquele país.

"Pessoalmente, recebo esta miserável e infame agressão como um reconhecimento da minha condição de revolucionário anti-imperialista. VENCEREMOS", escreveu El Aissami mais cedo no Twitter, respondendo ao anúncio do congelamento dos bens que possa ter em território americano. O empresário Samark José Lopez Bello, considerado seu testa de ferro, também é alvo de sanções similares.

As sanções proíbem a qualquer cidadão ou empresa americana negociar com os dois e 13 empresas.

"É como uma vingança do narcotráfico, somado à ultradireita venezuelana, que foi a Washington pedir estas medidas", denunciou Maduro.

Durante sua intervenção, El Aissami, sem gesticular, não tirou os olhos dele. O discurso terminou com aplausos ao vice-presidente e apertos de mão com vários funcionários.

Maduro assegurou que as sanções fazem parte de uma campanha para confrontá-lo ao presidente Donald Trump, por trás da qual está a "ultradireita venezuelana" com apoio da emissora CNN.

"Estão atacando um país, uma revolução e o alvo final sou eu", afirmou o presidente, reiterando o dito em um comunicado da chancelaria, segundo o qual a acusação pretende apoiar os golpistas.

Maduro enfrenta queda livre na popularidade devido a uma severa crise econômica, com aguda escassez de alimentos e remédios e uma inflação projetada pelo FMI em 1.660% em 2017.

Compasso de esperaAté agora, Maduro tinha voltado suas baterias contra Barack Obama, cujo governo declarou a Venezuela uma ameaça para a segurança dos Estados Unidos e decretou sanções contra sete funcionários venezuelanos, os quais são impedidos de voltar àquele país.

Mas Maduro tem tratado com cautela o governo Trump, de quem chegou a dizer ser vítima de uma "campanha de ódio". Maduro decidiu que devia entrar em compasso de espera.

Em seu comunicado, o governo considerou as sanções um "ilícito internacional" e advertiu que isto poderia levar Trump a perpetuar os erros de Obama perante a Venezuela.

O novo secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, declarou nesta terça-feira que a sanção "demonstra a seriedade" de Trump no combate às drogas.

"Além disso, ele quer enviar uma mensagem clara aos venezuelanos de que os Estados Unidos estão com eles", ressaltou.

Trump referiu-se tangencialmente à Venezuela em sua campanha eleitoral, advertindo que se não fosse eleito, a Suprema Corte poderia transformar os Estados Unidos em algo parecido ao país sul-americano.

Mas, segundo a Casa Branca, na segunda-feira expressou ao presidente colombiano, Juan Manuel Santos, sua preocupação com a crise venezuelana durante um telefonema.

O Parlamento venezuelano, controlado pela oposição, anunciou que investigará as acusações contra El Aissami.

Lista negraEl Aissami, um advogado de 42 anos, foi nomeado vice-presidente em 4 de janeiro, após uma ascensão meteórica nas fileiras do chavismo - onde começou como líder estudantil -, e uma notória presença midiática no último ano, sempre ao lado de Maduro.

O presidente lhe passou várias de suas atribuições, entre elas expropriar bens e nomear vice-ministros, e o nomeou chefe do chamado "comando antigolpe", responsável pela recente detenção de meia dúzia de adversários do governo.

Mas as autoridades americanas apontaram que as sanções "são o resultado de anos de investigação" e não estão vinculadas à nomeação de El Aissami à vice-presidência.

Segundo o Departamento do Tesouro, El Aissami teria recebido pagamentos do narcotraficante venezuelano Walid Makled, e teria ligações com o violento cartel mexicano Los Zetas.

Washington já tinha acusado outros funcionários venezuelanos de tráfico de drogas.

O ministro do Interior, Nestor Reverol, ex-diretor do Escritório Nacional Antidrogas (ONA), foi acusado em agosto de 2016 por um tribunal federal de Nova York por supostamente receber pagamentos de traficantes de drogas.

Em maio de 2015, o jornal The Wall Street Journal informou que as autoridades americanas também estavam investigando Diosdado Cabello, um dos mais poderosos líderes do chavismo, por supostas ligações com o tráfico de drogas.

No fim do ano passado, dois sobrinhos da primeira-dama, Cilia Flores, foram condenados por narcotráfico.

Diante de todas estas acusações, Maduro assegurou que são "ataques do imperialismo" para desestabilizar a "revolução bolivariana", fundada pelo falecido líder Hugo Chávez (1999-2013).

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