Governo Trump enfrenta sua primeira crise

Washington, 14 Fev 2017 (AFP) - O governo do presidente americano, Donald Trump, procurava nesta terça-feira superar sua primeira crise, ante a intempestiva renuncia de seu conselheiro de Segurança Nacional, em meio a crescentes apelos por uma investigação completa do ocorrido.

O general da reserva Michael Flynn renunciou na segunda-feira à noite ao cargo, após a crise provocada por suas polêmicas conversas em dezembro com o embaixador russo em Washington.

O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, disse nesta segunda-feira que a confiança de Trump em Flynn tinha "erodido a ponto de que o presidente sentiu que devia fazer uma mudança" e por isso "pediu ao general Flynn sua renúncia".

Segundo Spicer, Trump estava "muito preocupado ao saber que o general Flynn tinha ocultado informação do vice-presidente", Mike Pence, sobre sua conversa com o diplomata russo.

Em dezembro, quando Barack Obama ainda era presidente dos Estados Unidos, Flynn manteve uma conversa com o embaixador Sergei Kislyak, durante a qual abordaram a questão das sanções americanas contra Moscou.

Na carta de demissão, Flynn admite que "transmitiu sem querer ao vice-presidente eleito e a outros informações incompletas sobre suas conversas telefônicas" com o embaixador russo Sergei Kislyak.

Esta é a primeira baixa na equipe mais próxima de Trump, apenas quatro semanas depois da posse do republicano.

Em busca de uma saídaDe imediato, Trump nomeou o general da reserva Joseph Kellogg para ocupar de forma interina o posto de conselheiro de Segurança Nacional, de acordo com a Casa Branca.

Kellogg é um dos três favoritos para ocupar o cargo. Os outros dois são o vice-almirante Robert Harward, ex-comandante adjunto do Comando Central americano, e general da reserva David Petraeus, ex-diretor da CIA.

Petraeus renunciou ao cargo de chefe da CIA após um enorme escândalo. Ele compartilhou informações secretas com sua amante, uma jornalista que escrevia um livro a seu respeito.

Petraeus foi condenado a dois anos de liberdade condicional, que acaba em abril.

Nesta terça-feira, o presidente da Câmara de Representantes, Paul Ryan, declarou que Flynn renunciou após Trump exigir sua saída.

"Não podemos ter um conselheiro de Segurança Nacional que transmite informações incompletas ao vice-presidente e a outros. Por isso, acredito que o presidente fez certo ao pedir sua renuncia", apontou.

Para agravar o quadro, fontes oficiais disseram ao jornal Washington Post que em janeiro, a então secretária interina de Justiça, Sally Yates, tinha informado a Casa Branca sobre o conteúdo da conversa entre Flynn e Kislyak.

De acordo com as fontes, Yates alertou funcionários da Casa Branca que a situação deixava Flynn exposto a chantagens por parte da Inteligência russa.

Pedido de investigaçãoNeste cenário, multiplicaram-se na terça-feira às pressões para que se realize uma investigação completa sobre o incidente para determinar a responsabilidade da Casa Branca.

Para Nancy Pelosi, líder da bancada do Partido Democrata na Câmara dos Representantes, pediu uma investigação porque "os americanos merecem saber a extensão da influência financeira, política e pessoal da Rússia sobre o presidente Trump".

O legislador conservador Roy Blunt, integrante do Comitê de Inteligência da Câmara de Representantes, defendeu que o comportamento de Flynn seja investigado "exaustivamente".

Enquanto isso, o titular deste comitê, o legislador Devin Nunes, afirmou ser necessário saber porque agentes da Inteligência americana interceptaram um telefonema de Flynn e em seguida passaram a transcrição para a imprensa.

"Espero que o FBI me explique o que está acontecendo e espero também que tenham uma boa resposta", comentou.

Para a senadora democrata Elizabeth Warren (a quem Trump costuma chamar ironicamente de 'Pocahontas'), o ocorrido "não é normal. Trump deve aos americanos um relatório completo" de suas relações com a Rússia.

Em mensagem no Twitter, Trump criticou nesta segunda-feira os "vazamentos ilegais" de sua casa de governo.

"A verdadeira história aqui é porque há tantos vazamentos ilegais em Washington. Estes vazamentos vão ocorrer quando eu tenha que tratar com a Coreia do Norte?", escreveu o presidente.

Todo o escândalo que levou à queda de Flynn e à crise surgida dessa situação em um contexto em que as relações de Washington e Moscou estão no centro da polêmica.

Quando Flynn falou com Kislyak, o então presidente Obama preparava a aplicação de sanções contra cinco funcionários russos e tinha determinado a expulsão de 35 diplomatas de território americano.

Neste momento, Washington acusava diretamente a Rússia de ingerência nas eleições presidenciais de novembro passado.

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