A amizade entre Trump e o Kremlin na berlinda

Moscou, 15 Fev 2017 (AFP) - Três semanas depois da posse de Donald Trump, Moscou dá sinais de impaciência e de que gostaria de, finalmente, conhecer as intenções do novo inquilino da Casa Branca, que defendeu durante a campanha uma aproximação com o Kremlin, o que ainda não se traduziu em atos concretos.

O mistério poderia ser esclarecido no primeiro encontro do chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, com seu homólogo americano, Rex Tillerson, na quinta-feira pela cúpula do G20 em Bonn, na Alemanha.

Até agora, a situação parecia estar definida para Moscou. Donald Trump era um "amigo" da Rússia, sua eleição abriu caminho para a retomada das relações bilaterais e deveria permitir, a médio prazo, a retirada das sanções econômicas decretadas no início da crise com a Ucrânia e no fim do que parece uma "Segunda Guerra Fria" entre Rússia e Estados Unidos, um quarto de século depois da queda da União Soviética.

"Comemoramos durante três dias", brincou em dezembro o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, referindo-se à eleição de Trump. "Toda esperança de algo positivo (nas relações russo-americanas) provoca euforia", acrescentou.

Mas, desde sua chegada à Casa Branca em 20 de janeiro, o novo presidente não se apressou em retomar as relações. Vladimir Putin e Donald Trump só mantiveram uma conversa por telefone, na qual ambos concordaram em agir "de igual para igual", dando "prioridade" à luta contra o "terrorismo".

Nada muito formal e nada sobre o delicado assunto das sanções. Pior ainda, as supostas relações de pessoas próximas a Trump com a Rússia causaram problemas na administração americana.

Na terça-feira, o presidente republicano se viu obrigado a aceitar a saída de seu conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, um dos pilares de sua campanha eleitoral. Flynn foi questionado pelo conteúdo de suas conversas telefônicas com o embaixador da Rússia em Washington, Serguei Kisliak.

Além disso, o New York Times noticiou que a equipe de campanha de Trump se manteve, reiteradamente, em contato com responsáveis de alto escalão dos Serviços de Inteligência russos antes de sua eleição, o que o Kremlin qualificou como "propaganda".

"Devolução da Crimeia"Entretanto, o influente jornal liberal Vedomosti mostrou sua preocupação nesta quarta-feira em um editorial pela demissão de Flynn, que "poderia reduzir consideravelmente a esperança de ver as sanções retiradas".

"A elite dirigente conclui (sobre a demissão de Flynn) que não se deve esperar uma melhoria rápida (...) ou até que ela aconteça", analisa Alexandre Baunov, do Centro Carnegie de Moscou.

Para tentar acalmar os ânimos nos Estados Unidos por esta saída, Trump endureceu o tom com Moscou no Twitter nesta quarta: "Crimeia foi TOMADA pela Rússia durante a administração Obama. Será que Obama foi muito suave com a Rússia?".

O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, assegurou que o presidente americano esperava "do governo russo uma redução da violência na Ucrânia e a devolução da Crimeia", anexada em março de 2014 por Moscou após uma intervenção militar e um referendo de anexação, considerados ilegais por Kiev e pelos ocidentais.

Diante disso, a porta-voz da diplomacia russa, Maria Zajarova, respondeu secamente que a Rússia "não entrega seus territórios", e que as declarações de Trump e de seu porta-voz caíram como um "balde de água fria" no presidente da comissão de Assuntos Exteriores de Duma (Câmara Baixa do Parlamento russo), Leonid Slutski.

"Esta reação esfria algumas de nossas expectativas, muito rápidas e exageradas, a respeito da administração Trump", declarou. A decepção é ainda maior quando se leva em conta que os deputados de Duma aplaudiram o anúncio da vitória de Trump em 9 de novembro.

Viacheslav Volodin, presidente da Duma, pediu a Trump que "respeite suas promessas de campanha que diziam que melhoraria suas relações com a Rússia".

O Kremlin, por sua vez, prefere não piorar a situação. "Não é necessário precipitar as coisas. Temos que esperar os primeiros contatos", declarou Peskov aos jornalistas.

Segundo Baunov, os responsáveis russos "entendem que todo elogio feito por Trump será utilizado imediatamente contra os Estados Unidos e complicará a aproximação que tanto anseiam".

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