As argelinas divididas entre o futebol e o casamento

Argel, 7 Mar 2017 (AFP) - "Aos sete anos, depois de sair da escola, eu ia jogar futebol com os meninos do meu bairro", conta Fathia, meio-campista da equipe de Relizane, uma cidade a 300 km de Argel.

Fathia e outras 13 jovens que viveram experiências similares às suas se reúnem em volta do seu treinador, Sid Ahmed Mouaz, ligadas pela mesma paixão pelo futebol.

Em 1997, enquanto a guerra civil fazia estragos com cerca de 200.000 mortos, Mouaz, alguns apaixonados pela bola e jogadoras de futebol pioneiras criaram o time "Afak Relizane", ao mesmo tempo em que os islamitas armados proibiam às mulheres a prática de qualquer esporte.

Naquele ano, Relizane saiu do anonimato com o pior massacre da "década negra", que deixou mais de 1.000 mortos.

"Os terroristas me enviaram uma carta para exigir que abandonássemos o futebol feminino", lembra Mouaz, que se recusou a cumprir a ordem.

"As meninas foram insultadas e cuspidas na saída dos estádios. Para os que têm uma mentalidade retrógrada, uma menina de boa família não deve jogar futebol", lamenta Mouaz.

"Vá para casa cozinhar" ou "procure um marido" são algumas das frases que a maioria das jovens escuta com frequência.

As jogadoras, em sua maioria de origem humilde, conseguiram convencer seus familiares a aceitarem sua paixão por futebol, apesar dos preconceitos e de um reconhecimento econômico inexistente.

No estádio, contam com um dormitório, armários, uma televisão, um equipamento de som, um cozinheiro que prepara sua comida e, quando chegam, recebem a roupa, que seca ao ar livre após uma lavagem rápida.

No entanto, o corpo técnico as "obriga" a continuar com os estudos, a se inscreverem em um curso de formação, ou encontra um trabalho para elas.

A bola e o casamentoQuase todas as mulheres usam véu islâmico nesta cidade de quase um milhão de habitantes situada em uma região agrícola.

"Estou orgulhosa da minha filha, mas ficarei mais tranquila se ela deixar a bola, se casar e usar o véu como as outras mulheres da região", admite Fatma, a mãe de Fathia, jogadora da seleção da Argélia.

Viúva e mãe de seis meninos, Fatma fala da sua angústia permanente de morrer antes de que sua filha encontre um marido.

Cada vez que uma das meninas é cortejada por um menino, ouve sempre o mesmo refrão: "a bola ou o casamento".

As jovens são obrigadas a escolher entre se casar, o que significa o fim da sua carreira no futebol, e o celibato, que permite que continuem vivendo a sua paixão.

Mouna, atacante, se casará em março e abandonará seu sonho de jogar futebol.

"Se houvesse alguma motivação, continuariam jogando da mesma forma após o casamento", afirma Mouaz.

Mas nenhum patrocinador está interessado em seu time, que carece de financiamento. Na Argélia, o futebol feminino ainda é amador.

Doze euros por jogoNos últimos anos, o Afak Relizane dominou todas as competições nacionais, que disputou com times de cidades grandes, vencendo seis copas e sete campeonatos da Argélia, além de duas copas do Magrebe.

"Um orgulho para a cidade", ressaltam alguns habitantes. No entanto, quando jogam em casa, poucos moradores de Relizane se deslocam para apoiá-las.

"Não se financia um time de futebol feminino em Relizane", lamentam várias jogadoras, decepcionadas por obterem tão pouco reconhecimento quando se destacam em campo. Seis delas jogam na equipe nacional.

Um ex-wali (presidente da região) lhes ofereceu um micro-ônibus, pouco confortável para seus longos trajetos.

Quando ganham uma partida, recebem 1.500 dinares (12 euros) - "uma miséria", diz Mouaz indignado.

O orçamento anual acordado com as autoridades locais é de cerca de 3,2 milhões de dinares (27.313 euros).

Após sua última vitória, o wali recebeu as meninas para homenageá-las. Embora elas esperassem um pequeno gesto financeiro, receberam uma mochila esportiva e um agasalho.

"O amor pelo futebol é mais forte que a mentalidade retrógrada, mas tudo é feito para romper este time", resume um dos fundadores do Afak.

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