Defensor de imigrantes evita deportação em Nova York

Nova York, 9 Mar 2017 (AFP) - Durante anos, Ravi Ragbir ajudou centenas de imigrantes em Nova York, conectando igrejas, sinagogas e mesquitas a estrangeiros em situação ilegal que precisam de apoio. Mas nessa quinta-feira esse nova-iorquino nascido em Trinidad e Tobago pode ser detido e deportado.

Às 10 da manhã, Ragbir, ex-condenado com ordem de deportação pendente há 15 anos, entrará no Tribunal de Imigração de Manhattan para sua supervisão anual com um agente de deportação.

Será acompanhado na audiência no 9º andar por cerca de 20 pessoas, incluindo sua esposa americana, advogados, funcionários locais escolhidos, rabinos e sacerdotes da organização interreligiosa que dirige, New Sanctuary Coalition (Coalizão Novo Santuário) de Nova York, que ajuda imigrantes desde 2007.

Não sabe se vai sair da audiência em liberdade, e se voltará algum dia a caminhar pelas ruas do país em que vive há mais de 25 anos.

"Esse pode ser o fim", disse à AFP Ravi, de 40 anos, que reflete antes de pronunciar cada palavra.

Centenas de pessoas organizaram manifestações em apoio a Ravi nessa quinta-feira em uma praça próxima.

- Prioridade -Ragbir chegou legalmente aos Estados Unidos há 25 anos com uma visto de trabalho, e logo deu entrada no "green card" para conseguir a residência permanente. Até agora se salvou da deportação graças a novos adiamentos. O último expira em 2018.

Mas tudo pode mudar nessa quinta-feira, já que Ragbir e milhares de imigrantes como ele são o principal alvo do presidente Donald Trump, que quer expulsar imediatamente do país estrangeiros com antecedentes penais que já receberam uma ordem de deportação.

"Minha esposa chorou o dia inteiro em 9 de novembro", após a eleição de Trump, "e muitas vezes depois porque sabia das consequência. É uma advogada especializada em imigração e sabia o impacto que isso teria", contou Ragbir.

"Não sinto nada agora. Se sentisse algo, seria terror", porque "pode ser que não saia" do tribunal, disse ele, que trabalha na igreja batista Judson Memorial, no bairro de Greenwich Village.

Condenado por cometer em 2001 um delito de transferência bancária fraudulenta, quando trabalhava em uma empresa de hipotecas, Ragbir passou três anos em prisão domiciliar e dois em uma prisão federal.

Após ser libertado, passou mais dois anos detido em Nova Jersey e no Alabama, à espera de ser deportado. Mas seus advogados apelaram até a última instância, a Suprema Corte, que se recusou a julgar o caso. Enquanto durou sua apelação usou tornozeleira eletrônica e reportava-se a um agente migratório três vezes por semana.

Mesmo tendo cumprido sua pena e tendo uma esposa e uma filha americanas, o governo não quer normalizar seu status migratório. Ragbir não pode sair do país porque não o deixariam entrar novamente.

- "O poder do perdão" -A aliança interreligiosa que dirige, New Sanctuary Coalition, acredita que ninguém deve ser deportado. Treina dezenas de voluntários para que acompanhem os imigrantes às suas reuniões com agentes migratórios, diminuindo a chance de que sejam expulsos do país, diz Ragbir.

Mais de cem igrejas, sinagogas e mesquitas fazem parte da New Sanctuary Coalition na cidade de Nova York, um número que disparou desde a eleição de Trump. Mais de 20 delas estão dispostas a outorgar santuário físico aos imigrantes como último recurso em caso de ataque.

"Somos religiosos e acreditamos no poder do perdão. Nossa organização foi fundada para oferecer santuário às pessoas com antecedentes criminais, que ninguém quer defender", explica a pastora Donna Schaper, que dirige a igreja batista Judson e vai acompanhar Ragbir em sua reunião com o agente de deportação.

A organização, fundada em 2007 e que existe também em muitas outras cidades americanas, se inspirou no "movimento santuário" dos anos 1980, que alistou igrejas para transportar, alojar e esconder refugiados que fugíam das guerras civis em El Salvador e na Guatemala.

Após a eleição de Trump, Schaper confessa que se sente "devastada". "Vamos rezar para que o governo recupere o sentido comum e não expulse as pessoas que oferecem tanto às outras", disse a pastora em seu sermão no último domingo.

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