Carlos, o Chacal, será julgado 43 anos depois por atentado em Paris

  • Thierry Chiarello/Reuters

    O terrorista venezuelano está preso na França desde 1994

    O terrorista venezuelano está preso na França desde 1994

Quase 43 anos depois de um atentado em Paris que deixou dois mortos e dezenas de feridos, o venezuelano Ilich Ramírez Sánchez, apelidado Carlos, será julgado a partir de segunda-feira no tribunal especial da capital francesa.

No momento em que a França enfrenta desde 2015 uma série de atentados islamitas, a justiça se dispõe a voltar no tempo até os "anos de chumbo" das décadas de 1970 e 1980, quando a Europa sofria com ações terroristas anti-imperialismo em nome da causa palestina.

'O Chacal', de 67 anos, figura do terrorismo internacional dessa época, será julgado durante três semanas em Paris, por um tribunal especialmente formado pelos magistrados, pelo atentado mais antigo da história da justiça francesa. Essa será o último que ele vai comparecer na França.

Na tarde de 15 de setembro de 1974, duas pessoas morreram e 34 ficaram feridas pela explosão de uma granada lançada no interior da loja Drugstore Publicis, em pleno centro de Paris.

Carlos, preso na França desde sua detenção no Sudão pela polícia francesa em 1994, já foi condenado duas vezes à prisão perpétua pelo assassinato de três homens, entre eles dois policiais em 1975 em Paris, e por quatro atentados com explosivos que deixaram 11 mortos e 150 feridos em 1982 e 1983, em Paris, Marselha e em dois trens.

'Subjugar o governo'

"Enfim um julgamento! As vítimas esperam há tanto tempo que Carlos seja declarado culpado e condenado, suas feridas jamais fecharão", diz o advogado Georges Holleaux, que representa 18 das 30 partes civis do processo, entre elas as viúvas dos dois homens mortos no atentado.

"Que interesse tem realizar esse julgamento tantos anos depois dos feitos? É algo extravagante (...)" denuncia a advogada de Carlos, Isabelle Coutant-Peyre, que lembra que seu cliente nega os crimes pelos quais é julgado, em particular os "assassinatos com relação com uma empresa terrorista".

Essse julgamento é questionado pela defesa, que alega a prescrição dos crimes. Mas após uma batalha legal, a justiça não aceitou o argumento ao entender que essa prescrição foi interrompida pelos atos de procedimento feitos nos outros casos em que Carlos está envolvido, pois os feitos "são parte da perserverança de um compromisso terrorista".

Em entrevista no final de 1979 para a revista Al Watan Al Arabi, Carlos reconheceu ter lançado uma granada. Mas logo depois negou que tenha dado a entrevista.

Para a acusação, o atentado de Paris se enquadrou no contexto da tomada de reféns na embaixada da França em Haia. Um comando do ERJ (Exército Vermelho Japonês), braço da FPLP (Frente Popular de Libertação da Palestina) --da qual Carlos era membro das "operações especiais"-- exigia a libertação de um de seus membros, detido no aeroporto parisiense de Orly dois meses antes.

Esse homem carregava documentos sobre projetos de sequestro, com pedidos de resgates, de diretores de filiais de empresas japonesas estabelecidas na Europa para financiar o ERJ.

Principal responsável pela tomada de reféns de Carlos teria tomado a iniciativa de lançar a granada em Paris para subjugar o governo francês. E conseguiu. O detido japonês foi libertado e pode se reunir em Áden (Iêmen) com os demais membros do comando de Haia.

A acusação se baseia também nos testemunhos de antigos companheiros de estrada de Carlos, entre eles o ex-revolucionário alemão Hans-Joachim Klein, a quem o venezuelano teria confidenciado querer "pressionar para que se liberte o japonês".

Os investigadores também reconstituíram o circuito da granada utilizada no atentado, que era do mesmo lote -roubado em 1972 em um acampamento militar americano- que as usadas pelos sequestradores de Haia, descoberta em Paris na residência da amante de Carlos.

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