França acusa Renault de manipular seus motores durante décadas

Paris, 15 Mar 2017 (AFP) - O grupo automotivo francês Renault utilizou durante 25 anos "estratégias fraudulentas" para falsificar os testes de poluição de alguns dos seus motores, e a direção estava envolvida no esquema, afirmou a agência francesa antifraudes em um relatório ao qual a AFP teve acesso nesta quarta-feira.

O próprio presidente da Renault, Carlos Ghosn, estaria envolvido neste "Dieselgate" francês, segundo o relatório. "Não foi estabelecida nenhuma delegação de poder" por Ghosn neste caso, segundo a agência, que lhe atribui, portanto, a "responsabilidade" nesta suposta fraude.

A Renault de imediato desmentiu formalmente as acusações da agência antifraudes francesa, segundo afirmou à AFP o vice-presidente da companhia, Thierry Bolloré.

"A Renault não comete fraudes (...) Todos os veículos foram homologados de acordo com a regulamentação em vigor", afirmou por telefone Bolloré, diretor delegado de concorrência da empresa.

A agência, ligada ao ministério de Economia, suspeita que o fabricante francês criou, assim como a Volkswagen, um software "cujo objetivo era falsificar os resultados" dos testes antipoluentes de seus veículos.

O documento foi adiantado no domingo pelo jornal Libération. A análise da agência se concentra nos modelos recentes de Renault, mas a partir do testemunho do ex-funcionário. Segundo o ministério, algumas práticas remontam a 1990.

"Vários veículos foram equipados com dispositivos de detenção" que permitiam ao automóvel detectar se estava superando os limites dos testes de verificação.

Se fosse o caso, o software adaptava o funcionamento do motor para que emitisse menos poluentes, segundo o ex-técnico, que abandonou o grupo em 1997.

A primeira geração de Clio, comercializada em 1990, com motores de gasolina, já usava este programa, segundo ele.

A investigação da agência antifraude se concentra sobretudo nos motores a diesel Euro 5 e Euro 6, homologados desde setembro de 2009.

Após essas revelações, as ações da Renault na Bolsa de Paris fecharam com perda de 3,67%, em um mercado quase estável.

"Esses resultados fazem suspeitar que se instalou um dispositivo fraudulento que modifica especificamente o funcionamento do motor para reduzir as emissões de NOx [óxidos de nitrogênio] em condições específicas durante o teste de homologação para que as emissões respeitem os limites regulamentares", conclui a agência.

O relatório, entregue em novembro, contribuiu para que em 12 de janeiro passado o Ministério Público de Paris abrisse uma investigação sobre a Renault.

Segundo Frédérik-Karel Canoy, advogado de acusação particular no caso Renault, "esses fatos muito graves pedem uma resposta judicial que, segundo o código penal, prevê uma compensação integral".

"Pedimos o reembolso do veículo envolvido a preço de compra, considerando também o prejuízo moral e os gastos de advogados", disse o advogado, que criou uma página da internet para receber denúncias pelo caso.

Por sua vez, a associação de consumidores francesa UFC-Que Choisir, que também é acusação particular, denunciou o "laxismo das autoridades durante décadas sobre as normas e o controle", disse à AFP seu responsável jurídico, Nicolas Godfroy.

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