Turquia ameaça anular acordo migratório com a UE

Istambul, 15 Mar 2017 (AFP) - A Turquia ameaçou nesta quarta-feira anular unilateralmente o acordo migratório de março de 2016 com a União Europeia, que permitiu reduzir consideravelmente o fluxo de migrantes e refugiados na Europa, em meio às tensões com vários países da UE.

"Podemos acabar (com o acordo) unilateralmente. Ainda não informamos nosso interlocutores (europeus), tudo está nas nossas mãos", declarou o ministro turco das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu, ao canal 24 TV.

"A partir de agora, podemos dizer 'não vamos mais aplicar o acordo e está acabado'", acrescentou.

O ministro acusou a UE de não ter autorizado, como previsto no pacto, a liberação de vistos para cidadãos turcos na UE.

O polêmico acordo, concluído em plena crise migratória, que prevê o reenvio sistemático de todos os migrantes para a Turquia, permitiu reduzir drasticamente o número de chegadas na Grécia.

Este foi o último capítulo de uma crise entre a Turquia e a União Europeia, iniciada depois que Alemanha e Holanda não permitiram na semana passada que ministros turcos participassem em seus territórios de comícios em favor do referendo que dará mais poderes ao presidente Recep Tayyip Erdogan.

'Espírito do fascismo desenfreado'Mais cedo, nesta quarta-feira, Erdogan voltou a atacar violentamente a Europa, onde, segundo ele, "o espírito do fascismo está desenfreado", e acusou diretamente a Holanda de ser responsável pelo massacre de Srebrenica.

A crise diplomática se estendeu às redes sociais. Várias contas do Twitter certificadas, entre elas as da Anistia Internacional, BBC e do ministério francês da Economia, foram atacadas por hackers com mensagens em turco comparando a Holanda e a Alemanha ao regime nazista.

O Twitter confirmou ter sofrido um ataque de grande envergadura.

"A Holanda não tem nada a ver com civilização, nem com o mundo moderno, foram eles que massacraram mais de 8.000 bósnios muçulmanos na Bósnia Herzegovina, durante o massacre de Srebrenica" em 1995, acusou Erdogan em um discurso.

Srebrenica era um enclave sob proteção dos capacetes azuis holandeses da ONU. Em julho de 1995, durante o conflito iugoslavo, as forças sérvias da Bósnia mataram homens e meninos muçulmanos, na pior matança cometida na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Uma história que continua a atormentar a Holanda, onde uma investigação provocou a renuncia do governo em 2002 e onde, em setembro de 2013, depois de um veredito de um tribunal holandês, o país se transformou no primeiro Estado do mundo considerado responsável pelos atos de seus soldados sob mandato da ONU.

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, considerou na terça-feira como uma "falsificação nauseante da História" as críticas em relação a Srebrenica.

O conflito diplomático começou no sábado, quando a Holanda decidiu anular os comícios turcos em favor de um referendo, a ser realizado no dia 16 de abril, sobre uma reforma constitucional que concede maiores poderes à figura presidencial. Para obter maior apoio na consulta, os ministros turcos planejaram viagens por toda a Europa para incentivar os eleitores turcos em outros países.

Em seu discurso, Erdogan também declarou, em alusão aos nazistas, que "os judeus foram tratados da mesma maneira no passado".

Neste contexto, a Turquia suspendeu as relações de alto nível com a Holanda e bloqueou a entrada do embaixador holandês.

E, numa atitude inesperada, a associação de produtores de carne vermelha turca ordenou nesta quarta a consignação de gado holandês para que seja reenviado à Holanda, afirmando que já não deseja criar este gado devido à crise diplomática entre os dois países.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, disse nesta quarta-feira estar escandalizado com as declarações da Turquia comparando alguns países europeus, como Holanda e Alemanha, ao regime nazista de Adolf Hitler.

O resultado do referendo turco parece apertado e, na terça-feira, Erdogan disse que a vitória seria a melhor resposta para os "inimigos" da Turquia.

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