Atentados de Bruxelas: das máfias à Jihad, uma história da região do Rif

Bruxelas, 21 Mar 2017 (AFP) - Os primeiros membros da rede extremista franco-belga que cometeram os atentados de Paris e Bruxelas viviam no bairro de Molenbeek, em Bruxelas, onde foram influenciados pela população originária da região marroquina do Rif, explica o historiador Pierre Vermeren.

Os habitantes dessa zona montanhosa do norte do Marrocos levaram para a Bélgica uma longa tradição de desconfiança em relação à autoridade e práticas mafiosas vinculadas ao tráfico de maconha, afirma o especialista em Magreb e no mundo árabe-bereber.

AFP: Por que os habitantes do Rif se transformaram no viveiro de focos jhadistas na Europa?

PV: Os motivos são inúmeros e complexos. Historicamente, essa população se estruturou na adversidade.

Superpopulação, terremotos, submissão, o Rif sofreu as consequências de sua marginalidade e sua dissidência histórica. A maioria dos habitantes guardam recordações das tragédias do século XX. Eles se encerraram em suas histórias. A religião, em suas versões mais rigorosas, inclusive salafitas, e também os negócios, incluindo os criminosos e ilegais, foram escapatória e remédio contra esses males, em situação de omertá (lei do silêncio) e ensinamento comunitário, familiar ou de clãs.

Os habitantes da região, seus filhos e netos, mesmo que tenham nascido na Europa, não se desvencilham desta história. Entre eles, algumas crianças perdidas se uniram em redes de solidariedade e camaradagem, e, em certos casos, com objetivos criminosos comprovados, e caíram no jihadismo, na Bélgica e na França, e ainda mais dentro do grupo Estado Islâmico (EI).

Os recrutadores da Jihad procedente do Oriente Médio não hesitaram em tirar proveito dessa juventude perdida, mergulhada na delinquência, a quem atraíram utilizando a armadilha do arrependimento e da morte como mártires.

AFP: Por que e como passaram do tráfico de cannabis para o Islã radical e salafismo jihadista?

PV: Não se pode buscar uma consequência lógica, e sim uma espécie de continuidade. Tem a ver tanto com fatalidade quanto com a necessidade. A fatalidade de encontrar recrutadores mal-intencionados. E a necessidade de conhecer a manipulação de armas, as passagens pelas fronteiras, a clandestinidade e os costumes dos bandidos e do âmbito dos traficantes para realizar operações de guerra, inclusive terroristas.

Muito se escreveu sobre o endurecimento dos jihadistas na Síria, mas não foi isso o necessário para fazer os atentados em Paris e Bruxelas, e sim a astúcia, a dissimulação e uma determinação silenciosa e inquebrantável, como os jihadistas do 11 de setembro de 2001.

Sua força reside na organização, na passagem das fronteiras, uma rede de esconderijos, transferências de dinheiro e de armas etc.

Tudo isso se aprende no mundo criminoso, acostumado a mover pela Europa milhares de toneladas de haxixe, que alimentam a economia dos bairros marginais. Esses indivíduos investiram sua habilidade em uma guerra inventada por ex-oficiais de Saddam Hussein.

AFP: Quais são as soluções para frear o tráfico de drogas procedentes do Rif (80% do cannabis consumido na Europa) e acabar com essas redes mafiosas?

PV: É uma questão de política. É inútil correr atrás dos delinquentes que vendem a cada ano milhares de toneladas de drogas e ganham milhares de milhões de dólares, sempre restará o suficiente para alimentar as redes e as máfias.

Talvez a solução seja conversar e negociar com o Marrocos, que é um Estado forte e centralizado. As máfias do Rif também criam problemas para os marroquinos e, além disso, essa região é o cenário de frequentes episódios de violência.

O Marrocos é o país mediterrâneo mais ajudado pela União Europeia, portanto podem negociar margens de manobra. Mas tem que ser um acordo no qual as duas partes saiam ganhando. A Europa, que aceita de fato esse tráfico em seu território (...), deve expressar uma vontade: em troca da erradicação das plantações em seu solo, o Marrocos deve receber uma ajuda duradoura e eficaz para estabilizar uma região de cinco milhões de habitantes.

As redes criminosas estarão suficientemente desestabilizadas para que os policiais possam se reorganizar e se concentrar nos novos tráficos que acabarão aparecendo. Mas, ao menos, serão freados os danos sociais, intelectuais, psiquiátricos, escolares e criminosos que afetam milhões de jovens europeus, de Marselha até Bruxelas.

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