Estados Unidos dão giro de 180 graus na globalização

Washington, 22 Mar 2017 (AFP) - Nos temas como livre-comércio, globalização e organizações multilaterais, os Estados Unidos deram um giro de 180 graus e questionam o "Consenso de Washington", um tipo de doutrina econômica lançada há quase 30 anos.

Durante a reunião dos ministros das Finanças e de presidentes de bancos centrais do G20 no último fim de semana na Alemanha, os enviados de Donald Trump bloquearam a resolução de longa data contrário ao protecionismo e condicionaram seu compromisso ao sistema multilateral, incluindo a Organização Mundial do Comércio (OMC).

"Essa é obviamente uma mudança muito significativa", disse Edward Alden, membro principal do Conselho de Relações Exteriores e especialista em comércio.

"Donald Trump é o primeiro presidente em mais de 75 ou 80 anos que disse abertamente que acredita que o protecionismo pode ter sentido para os Estados Unidos", acrescentou.

Desde o começo do pós-Guerra, os Estados Unidos impulsionaram a integração econômica mundial, apoiando-se no Banco Mundial, no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Acordo Geral sobre Tarifas Alfandegárias e Comércio (Gatt, na sigla em inglês), que precedeu a OMC, para promover o comércio internacional baseado em normas.

Em 1989 foi elaborado o chamado "Consenso de Washington", uma lista de recomendações econômicas avalizadas pelo FMI, pelo Banco Mundial e pelos Estados Unidos que incluíam a liberalização do comércio e o rechaço absoluto do protecionismo, pontos que hoje a Casa Branca questiona fortemente.

- "Enfraquecendo a liderança dos EUA" -Entretanto, Trump ganhou as eleições com a promessa de corrigir a desigualdade comercial que, para ele, rouba empregos americanos.

Trump quer renegociar o Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta) entre seu país, o México e o Canadá, e projetou pagar tarifas de importação sobre certos bens.

O déficit comercial crônico dos Estados Unidos ficou em 502,2 bilhões de dólares em 2016, ampliado pelo déficit com a China (347 bilhões), a Europa (146,3 bilhões) e o México (63,2 bilhões).

Eswar Prasad, ex-economista do FMI, disse à AFP que os Estados Unidos irão lamentar sua recente mudança ideológica.

"A omissão no comunicado do G20 da menção costumeira sobre o livre-comércio pode ser uma vitória para a agenda protecionista de Trump, mas custará o enfraquecimento da liderança americana em temas econômicos globais", disse Prasad.

"Os Estados Unidos poderão se ver cada vez mais isolados em assuntos como a promoção do livre-comércio e a luta contra a mudança climática, à medida que outas economias importantes começarem a colaborar mais estreitamente entre si em resposta à saída dos Estados Unidos", sustentou.

Mas outros argumentam que os Estados Unidos têm menos a perder em uma guerra comercial do que seus sócios, dando-lhe mais peso na negociação.

Mohamed El-Erian, conselheiro econômico da seguradora alemã Allianz SE, disse que o dano que Washington pode sofrer pela política de "os Estados Unidos primeiro" será menor que o causado a "muitos outros países".

"Outros [países] enfrentam uma desagradável situação em que aceitar um mau resultado é melhor que arriscar algo muito pior", escreveu El-Erian na segunda-feira em uma coluna no Bloomberg.

Alden acredita que as consequências irão depender da escala e natureza das políticas que Washington acabar adotando.

"Se envolverem pequenas mudanças nos acordos comerciais do Nafta e uma moderada pressão sobre a China... esses poderiam ser resultados potencialmente consistentes com a filosofia do governo", explicou.

- Linha dura com os organismos -"Mas se tomarem uma linha muito mais dura, impuserem tarifas às importações ou se distanciarem de acordos como o Nafta, seria muito mais prejudicial para os outros países e para os Estados Unidos", considerou Alden.

Para China e México, os Estados Unidos são, de longe, o maior mercado de exportação e por isso esses países poderiam ser os mais vulneráveis às políticas agressivas de Washington.

"Acredito que a Europa seja menos vulnerável e não seja um alvo", acrescentou.

No entanto, Peter Navarro, diretor do Conselho Nacional de Comércio da Casa Branca, acusou a Alemanha de explorar a fraqueza do euro para aumentar seus excedentes comerciais.

Dos dois nomeados por Trump para cargos-chave no Departamento do Tesouro, David Malpass como subsecretário de Assuntos Internacionais, e Adam Lerrick como subsecretário de Finanças Internacionais, são conhecidos como céticos ao FMI e o Banco Mundial, em que os Estados Unidos são o maior acionista e financista.

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