Mecânico se torna a estrela do debate eleitoral na França

Paris, 5 Abr 2017 (AFP) - Philippe Poutou, mecânico em uma fábrica do grupo automobilístico Ford e líder do Novo Partido Anticapitalista (NPA), se tornou na terça-feira à noite uma das estrelas do segundo debate da campanha eleitoral na França.

Poutou começou o debate se negando a aparecer na foto de grupo dos candidatos e se tornou a voz dos eleitores descontentes com uma campanha marcada por vários escândalos.

O candidato presidencial de 50 anos, que vestia uma camisa de manga comprida ao invés do tradicional terno e gravata, deixou clara sua mensagem desde a primeira intervenção. "Fora [a candidata comunista] Nathalie Arthaud, acredito que eu seja a única pessoa neste lugar que tem um trabalho normal, um emprego normal", disse Poutou, que trabalha em uma fábrica em Bordeaux.

"Nós só podemos falar em nome das milhões de pessoas que sofrem com a crise [econômica], que estão fartas desta aplanadora capitalista que destrói tudo a sua frente", acrescentou.

O confronto entre este mecânico e seus rivais políticos profissionais foi especialmente ríspido em alguns momentos. Poutou não hesitou em denunciar o candidato da direita, François Fillon, indiciado pelo desvio de dinheiro público depois da revelação de que pagou centenas de milhares de euros a sua esposa por um emprego fictício como assistente parlamentar.

"São homens que nos explicam que é necessário rigor, austeridade, enquanto roubam" o país, disse ao ex-primeiro-ministro François Fillon, que ameaçou levá-lo à justiça por suas palavras.

O candidato anticapitalista também atacou a líder do partido de ultra-direita Frente Nacional, Marine Le Pen, que invocou sua imunidade parlamentar para se esquivar da convocação dos juízes que investigam outro caso de empregos fictícios, desta vez no Parlamento Europeu.

"Para alguém tão antieuropeu, ela não se incomoda em nada em roubar os cofres da Europa", alfinetou. Nós, "quando somos convocados pela polícia, não temos imunidade dos trabalhadores, temos que ir!", acrescentou provocando o aplauso do público.

Sobre o centrista Emmanuel Macron, ex-banqueiro e ex-ministro da Economia de 39 anos, favorito segundo as pesquisas, Poutou assegurou que ele não "sabe de nada sobre trabalho"

- "Representante da classe trabalhadora" -Sua atuação o converteu em um personagem popular nas redes sociais.

Para Christophe Gueugneau, comentarista no site de informação Mediapart, Poutou "se mostrou como o representante natural da classe trabalhadora".

Algumas pessoas o elogiaram por se atrever a falar das acusações de corrupção que mancharam a campanha das eleições presidenciais de 23 de abril (primeiro turno) e de 7 de maio (segundo turno), após o primeiro debate em que estes casos foram apenas mencionados.

Depois do debate de terça-feira, os organizadores do terceiro debate, previsto para 20 de abril, anunciaram nesta quarta-feira que não ocorreria por conta do receio mostrado por vários candidatos.

As intervenções de Poutou não suscitaram apenas entusiasmo. Alguns analistas o acusaram de baixar o tom do debate e assinalaram que suas respostas sobre assuntos políticos como a Europa e a economia foram, muitas vezes, confusos e incoerentes.

"Não acredito que Philippe Poutou mereça qualquer tipo de homenagem", opinou Anna Cabana, analista política da emissora de notícias BFM TV. "Agiu de forma muito desrespeitosa".

O perfil do candidato se encaixa com o de outros representantes da classe trabalhadora nos últimos anos, que não conseguiram bons resultados nas eleições, mas gozaram de uma breve fama em um país com uma veia rebelde e uma longa história de revoltas contra a classe dominante.

Poutou obteve somente 1,15% dos votos quando se candidatou pela primeira vez, em 2012, e as pesquisas não mostram que irá conseguir um resultado muito melhor desta vez.

Entre suas propostas conhecidas, vale destacar a proibição da demissão para as empresas, a diminuição da jornada de trabalho de 35 para 32 horas e a expropriação de empresas do setor bancário.

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