Um primeiro ano de poder difícil para a Nobel Suu Kyi em Mianmar

Yangon, 6 Abr 2017 (AFP) - Depois de um ano no poder em Mianmar, o governo da ex-dissidente Aung San Suu Kyi enfrenta dificuldades para realizar as reformas econômicas e sociais que sempre prometeu, gerenciar os conflitos étnicos e livrar-se dos vestígios das ainda poderosas forças armadas.

Durante décadas, Mianmar viveu sob uma ditadura militar e sonhou com a democracia. As expectativas dos birmaneses eram muitos elevadas depois das históricas eleições de novembro de 2015, que levaram ao poder a chamada Dama de Yangun e seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND).

Passado um ano no poder, Suu Kyi continua sendo querida, mas algumas queixas começam a ser ouvidas.

"O eleitorado urbano politicamente comprometido acha que o governo não corresponde a suas expectativas", explica o analista Richard Horsey, assessor do Internavional Crisis Group.

"Em parte porque as expectativas eram muito altas, mas em parte também devido aos erros do governo", acrescenta.

Aung San Suu Kyi, que evita as coletivas de imprensa, aparece como uma figura cada vez mais distante, destacam os analistas.

Durante os funerais de um advogado ligado a ela, no final de janeiro, interpelada no aeroporto de Yangun, Suu Kyi pediu que o público fosse paciente.

"Para a historia de um país, para a história de um governo, dez meses ou um ano não é anda", declarou à multidão.

Em uma rara entrevista dada à BBC esta semana, ela negou as acusações de limpeza étnica da minoria muçulmana rohingya em Mianmar, depois que a ONU iniciou uma investigação sobre as alegações contra o exército neste país do sudeste asiático.

"Não acredito que haja limpeza étnica. Considero que o termo 'limpeza étnica' seja muito forte para explicar o que acontece", disse a ex-dissidente em uma entrevista transmitida na quarta-feira pela emissora britânica.

A Prêmio Nobel da Paz já havia negado no fim de março a decisão da ONU de enviar uma missão de investigação pelos recentes abusos imputados ao exército.

Segundo a chefe de governo, há "muita hostilidade" na província oeste do país, onde vivem mais de um milhão de rohingyas, mas "são também os muçulmanos que matam outros muçulmanos".

"Não é unicamente um tema de limpeza étnica", acrescentou. "Trata-se de dois grupos que se enfrentam e tentamos resolver" a situação, sustentou.

Os rohingyas, minoria considerada apátrida, são tratados como estrangeiros em Mianmar, país onde 90% da população é budista, embora alguns estejam morando há décadas no país.

Em outubro, o exército lançou uma ofensiva no estado de Rakhin, onde vivem os rohinyas, depois que grupos armados atacaram postos fronteiriços.

Segundo o alto comissário da ONU para os direitos humanos, esta campanha de vários meses está provocando uma "limpeza étnica" e estão sendo cometidos "muito provavelmente" crimes contra a humanidade.

Dezenas de milhares de rohingyas se refugiaram em Bangladesh e asseguram ter testemunhado assassinatos, torturas e estupros em grupo por parte dos soldados birmaneses.

Mianmar está realizando sua própria investigação sobre possíveis crimes.

Aung San Suu Kyi assegurou que aqueles que se refugiaram no país vizinho estarão "em segurança se desejarem retornar".

- Decepções -Mas as decepções se acumulam. Além do processo de paz com os rebeldes em ponto morto, as perspectivas econômicas não são boas. O crescimento desacelera e o investimento estrangeiros pode cair pela primeira vez em quatro anos, enquanto que o poder aquisitivo dos birmaneses está prejudicado por uma inflação de dois dígitos.

Além disso, os políticos reprovam Suu Kyi por concentrar muito poder em suas mãos e sufocar o debate dentro de seu partido.

Mas a Dama de Yangun enfrenta um problema muito complexo: o governo continua sob o crivo de uma Constituição herdada pela Junta militar que impede Suu Kyi de ter acesso à presidência e garante aos militares um quarto de cadeiras no Parlamento.

O exército continua controlando três ministérios importantes, Defesa, Fronteiras e Interior, e conserva um forte peso econômico graças a sua onipotência em inúmeros setores-chave.

Para os analistas, esse impedimento e o aumento dos combates étnicos poderão ser fatais para Suu Kyi nas eleições parciais de abril.

"Existia a esperança de que a situação ia melhorar com a chegada de um novo governo, mas não é o caso, inclusive é ainda pior", explica Bertil Lintner, especialista em Mianmar.

No plano internacional, muitos se surpreendem com seu silêncio sobre, por exemplo, as questões étnicas.

"O fato de ignorar completamente certas informações coloca em dúvida sua capacidade para governar", opina David Mathieson, analista independente.

Para Aung Tun Thet, conselheiro governamental, ainda é cedo para julgar o partido no poder. "Não podemos dizer, depois de um ano, qual é o resultado do governo, como em um exame. Não podemos dizer se teve êxito ou fracassou", concluiu.

/cncah/tib/lch/me/age/cn

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos