Franceses contrários à extrema-direita temem vitória de Le Pen

Paris, 8 Abr 2017 (AFP) - A apenas duas semanas das eleições presidenciais na França, os eleitores radicalmente contrários à extrema-direita se perguntam o que fazer em caso de vitória da Frente Nacional, cuja candidata, Marine Le Pen, se classificará para o segundo turno, segundo as pesquisas.

As mesmas pesquisas preveem uma derrota da líder da Frente Nacional (FN), partido anti-imigração e anti-euro que deseja "colocar a França em ordem", no segundo turno, em 7 de maio, independentemente do seu adversário.

No entanto, após a vitória surpreendente do Brexit e a eleição de Donald Trump, ninguém descarta uma possível surpresa, sobretudo porque um terço dos eleitores ainda estão indecisos.

Na imprensa e nas livrarias francesas proliferam há vários meses artigos e livros que imaginam as consequências de uma presidência da FN, cujas ideias indiscutivelmente ganharam espaço na França nos últimos anos.

"Um perigo real", disse Matthieu Croissandeau, diretor do semanário 'L'Obs', que dedicou em março um dossiê ao "cenário negro dos 100 primeiros dias" de um mandato de Le Pen.

O mundo da cultura já está em pé de guerra.

"A Frente Nacional está às portas do poder. Convocamos a frear Marine Le Pen" em nome da "liberdade de pensar e criar", escreveram nesta semana centenas de artistas, como as atrizes Jeanne Moreau e Léa Seydoux.

Assim como os americanos anti-Trump tentados a fugir para o Canadá, alguns afirmam que escolheriam o exílio.

"Como medida de precaução, vou preparar minha partida para Quebec", escreve o humorista Guy Bedos, de 82 anos, em seu último livro. "Tenho uma aversão absoluta à família Le Pen", confessou à AFP o artista de esquerda.

O franco-mauriciano Jean-Marie Gustave Le Clézio, Prêmio Nobel de Literatura, renunciará ao seu passaporte francês se Marine Le Pen se instalar no Eliseu, afirma desde 2015.

Outros prometem entrar na resistência, incluindo na função pública.

- 'Soaremos o alarme' -O embaixador da França no Japão, Thierry Dana, anunciou que se colocaria "na reserva de qualquer função diplomática", recusando-se a servir a um Estado com o selo FN.

O ensino enfrentaria o mesmo dilema.

"A partir do dia seguinte, como professor de ciências da educação, a questão que surgirá para mim é 'Como ensinar (...) em uma França lepenista?'", questiona François Durpaire, co-autor de "La Presidente", uma história em quadrinhos que imagina uma França governada pela Frente Nacional.

"Para mim a questão é clara, respeito o voto democrático, mas resisto com força a qualquer medida contrária às leis da França", afirma à AFP este historiador de formação, citando a vontade de Le Pen de instaurar um "tempo de carência" de dois anos antes que os estrangeiros possam se beneficiar de educação gratuita.

"Será possível opor uma resistência não só moral, mas também jurídica. Contra Donald Trump não há apenas militantes de esquerda, há juízes", indica. Nos Estados Unidos, alguns tribunais bloquearam um controverso decreto migratório que proíbe a chegada de refugiados e de cidadãos de seis países muçulmanos.

"A presidência de Le Pen seria um fracasso político para os direitos humanos, mas seguiremos lutando", insistia o presidente da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH), Dimitris Christopoulos, um defensor incansável dos direitos dos imigrantes, que vive entre a França e a Grécia.

Se for eleita, "soaremos o alarme", reage Laurent Joffrin, diretor da redação do jornal de esquerda Libération.

Desde a eleição de Donald Trump, "a imprensa americana se lançou em um movimento de resistência diante do novo presidente dos Estados Unidos, estão muito alertas e lutam com força (...) Faremos o mesmo aqui", garante.

"Mas não haverá fascismo da noite para o dia", relativiza o jornalista. "Para aprovar leis, é preciso uma maioria na Assembleia, então o próximo combate será imediato: impedir que a FN obtenha uma maioria para aplicar seu programa".

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