Reconciliação ou enfrentamento: o dilema de Erdogan após o referendo

Ancara, 17 Abr 2017 (AFP) - Após a vitória apertada no referendo para ampliar seus poderes, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, precisa curar as feridas de um país dividido, mas ainda não está claro se optará pela reconciliação ou pelo enfrentamento com os adversários.

O 'Sim' recebeu 51,41% dos votos no domingo e o presidente não conseguiu vencer nas três maiores cidades do país: Istambul, Ancara e Izmir.

A campanha foi marcada por um discurso veemente de Erdogan contra os opositores da reforma, que ele chegou a comparar a terroristas, e também por suas críticas a alguns países europeus, acusados de "práticas nazistas" depois que proibiram comícios da comunidade turca a favor da reforma.

Fadi Hakura, do centro de estudos londrino Chatham House, acredita que Erdogan não mudará seus métodos, apesar da vitória por pequena margem.

"Não penso que Erdogan vai se afastar do tom duro de política que adotou até o momento. É provável que insista ainda mais na linha dura e em seu estilo de política sem compromissos", disse.

Murat Yetkin, chefe de redação do Hürriyet Daily News, jornal turco em língua inglesa, opina que "Erdogan é um político com experiência suficiente para saber que esta vitória apertada não permitirá que atue de forma tão livre como se tivesse obtido uma margem mais importante".

- 'Campanha assimétrica' -Em um discurso no domingo à noite, o presidente turco apresentou a possibilidade de organizar um referendo sobre o retorno da pena de morte, uma autêntica linha vermelha para a União Europeia no processo de adesão de Ancara.

"Não foi uma boa mensagem para a União Europeia, nem para atrair os investidores estrangeiros", disse Yetkin.

Aykan Erdemir, da Fundação para a Defesa da Democracia, com sede em Washington, Erdogan poderia obter uma grande vitória em um referendo sobre a pena de morte, o que permitiria recuperar parte do prestígio após a votação de domingo.

Os dois principais partidos de oposição, CHP (social-democrata) e HDP (pró-curdo), denunciaram "manipulações" no referendo e anunciaram a intenção de impugnar os resultados.

"Que eu lembre, esta é a primeira vez que a legitimidade de uma votação e a equidade de um processo foram objetos de vigilância tão estreita na Turquia", afirmou Hakura.

"Erdogan sempre se orgulhou (...) da autenticidade do apoio que recebia dos turcos", disse.

A pequena diferença no resultado de domingo é especialmente significativa após uma campanha na qual o 'Sim' teve muito mais espaço de cobertura nos meios de comunicação do que o 'Não'.

Erdemir afirmou que a campanha foi "a mais assimétrica da história da Turquia" e, em tais condições, o bom resultado do 'Não' demonstra que "o clientelismo, o nepotismo, a opressão, as detenções dos opositores e a tomada de controle dos meios de comunicação não funcionam".

- Incertezas -Uma das incógnitas a respeito do referendo é a reação dos círculos econômicos. Antes da votação, a ideia dominante era que os mercados preferiam o 'Sim' a curto prazo, já que não representava muitas incertezas, entre elas a possibilidade de eleições antecipadas.

Mas o centro de estudos econômicos Capital Economics considera que "a vitória apertada provoca mais perguntas que respostas para os mercados financeiros" e cita, por exemplo, a rejeição do resultado por parte da oposição e suas possíveis consequências.

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