FMI ante o desafio de conviver com o governo Trump

Washington, 20 Abr 2017 (AFP) - Em seus 70 anos de existência, o Fundo Monetário Internacional (FMI) se habituou a crises financeiras e programas internacionais de ajuda, mas enfrenta agora um desafio completamente novo: conviver com uma Casa Branca que nem sempre concorda com sua visão.

Enquanto o FMI e o Banco Mundial preparam sua reunião nesta semana em Washington, não faltam fontes de divergência.

O governo de Trump propõe desmantelar parte importante da regulação financeira adotada depois da crise financeira de 2008, enquanto o FMI alerta que medidas de desregulação "aumentarão a probabilidade" de um novo transtorno financeiro.

E se o FMI adverte sobre o impacto econômico das mudanças climáticas, a Casa Branca de Trump duvida da própria existência do fenômeno, se propõe a relançar a indústria do carvão e ameaça retirar os Estados Unidos do acordo de Paris que determina um corte das emissões de gases poluentes.

Mas é na delicada questão do comércio internacional que o potencial de problemas entre o FMI e seu principal acionista é mais alto.

Desde que Trump estava em campanha eleitoral, no ano passado, o FMI insistiu em advertir sobre os riscos do "retrocesso" econômico, das restrições à migração e o espectro de uma "guerra comercial".

Trata-se de uma visão que contrasta abertamente com a agenda de Trump, que ameaça impor novas barreiras alfandegárias, fechar as portas à migração, denunciar o livre fluxo defendido na Organização Mundial de Comércio (OMC) e que acaba de assinar um decreto para priorizar a compra de produtos americanos.

Até agora, o FMI escapou das críticas diretas do presidente, mas escapou da atenção do Secretário de Comércio, Wilbur Ross, para quem "cada vez que fazemos qualquer coisa para defender-nos (...) eles o chamam de protecionismo".

- Antagonismo -"Claramente há no governo aqueles que expressam um imenso ceticismo sobre multilateralismo e, se essa visão se impor, então instituições como o FMI vão sofrer", disse à AFP Douglas Rediker, ex-representante dos Estados Unidos no Fundo.

Este antagonismo está em clara contradição com a relativa tranquilidade dos anos de Barack Obama na Casa Branca, enquanto o FMI tinha um interlocutor para discutir um aumento do salário mínimo americano, uma ofensiva contra a desigualdade ou dar mais voz aos países emergentes.

Para Nathan Sheets, ex-subsecretário para assuntos internacionais no Departamento do Tesouro, "haverá algumas tensões mas o peso dos Estados Unidos não deve impedir que o FMI seja direto e franco em suas avaliações das políticas americanas".

No momento, o FMI mantém sua mensagem contrária ao protecionismo, mas ao mesmo tempo tenta erguer uma ponte com Trump elogiando seu plano de investimentos em infraestrutura.

"Com o resultado de um esperado estímulo fiscal americano a uma esperada reforma fiscal, há otimismo", disse recentemente a diretora-gerente da entidade, Christine Lagarde.

Pouco antes da posse de Trump o FMI revisou em alta suas previsões sobre o crescimento americano, a 2,3% em 2017, e na terça-feira manteve essa previsão em seu novo relatório, apesar das "incertezas" que cercam seu programa econômico.

Nesse cenário, o FMI deve desempenhar um delicado exercício de equilibrista: afirmar sua independência sem abrir uma frente de conflito com seu principal contribuinte.

Na verdade, os Estados Unidos não tem meio legais para cortar os recursos do FMI, mas podem tornar a vida da instituição mais difícil, freando os esforços da instituição em abrir-se a questões sociais e ambientais, e dar mais peso a acionistas como China e Rússia.

"O governo de Trump terá condições de ter um impacto na agenda do Fundo", disse Sheets.

O espinhoso caso da Grécia também poderia ser severamente afetado. O FMI está aliado a países europeus na iniciativa para manter o plano de ajuda à Grécia, mas para isso deverá convencer a Casa Branca de que se trata de algo necessário.

Para Sheets, o governo de Trump "será mais reticente a apoiar a utilização de recursos do FMI na Grécia".

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