Jean-Luc Mélenchon: o 'independente' da esquerda radical francesa

Paris, 20 Abr 2017 (AFP) - Orador brilhante de posições cortantes, o defensor da esquerda radical francesa, Jean-Luc Mélenchon, admirador da esquerda latino-americana, conseguiu se posicionar entre os favoritos para a eleição presidencial francesa.

Mélenchon, adepto dos discursos sem papas na língua, não deixa por menos. Populista de esquerda para seus adversários, defensor do povo contra a oligarquia para seus seguidores, esse neto de espanhóis que nasceu em Tânger (Marrocos), começou a corrida pelo Palácio do Eliseu com o lema "França Insubmissa".

As pesquisas mostram Mélenchon atualmente em terceiro lugar, com 20% das intenções de voto, empatado com o candidato da direita François Fillon, mas atrás da líder da extrema direita Marine Le Pen (22%) e do independente sócio-liberal Emmanuel Macron (23%).

Filósofo de formação, admirador de Hugo Chávez e do partido espanhol Podemos, Mélenchon foi membro do Partido Socialista, o grande partido de esquerda francês, durante 30 anos, antes de sair bruscamente.

O "Chávez francês", como foi chamado pelo jornal conservador Le Figaro, considerava o presidente venezuelano o protagonista de um processo que abriu na América Latina "um novo ciclo para nosso século, da vitória das revoluções cidadãs".

Com 65 anos, não perdeu nem um pouco seu radicalismo, mas incorporou ao seu discurso um toque de humor, deixando de lado seus conhecidos discursos raivosos.

"Agora sou mais um filósofo, menos impetuoso. O conflito tem seus limites", explica.

Apesar disso, Mélenchon, que em 2012 proclamou ser "o ruído e o furor, o tumulto e o choque", e diz que seu jeito está em sintonia com seu discurso. "Não se pode propor o que eu proponho com uma cara de bom garoto e voz melodiosa. Ás vezes não há opção, temos que abrir as portas aos chutes", explica.

- Estrela do YouTube -Crítico incansável da Europa "liberal", Mélenchon advoga por uma ruptura com os tratados europeus e se refere com palavras duras à Alemanha conservadora de Angela Merkel, a quem compara com o chanceler imperial Bismarck.

Quer tirar a França da Otan e romper com os tratados europeus. Propõe a entrada da França na Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), para "instaurar uma política de desenvolvimento com a América Latina e o Caribe" através de seus territórios ultramarinos.

A eloquência desse veterano da política francesa, que veste camisas de gola Mao, o transformou em uma estrela da internet, com cerca de 300.000 pessoas inscritas em seu canal no YouTube e mais de um milhão de seguidores no Twitter.

Para ele, a internet é uma maneira de propagar suas ideias sem ter que passar pelo filtro da mídia, com quem manter uma relação complicada.

Nos eventos públicos, esse orador de talento cativa o auditório com longos discursos sem precisar ler suas notas. Causou furor ao organizar um evento duplo ao vivo , um em Lyon (centro), onde estava fisicamente, e outro em Paris, onde apareceu em forma de holograma.

"Inventou o 'stand-up' político, se transformou em um 'showman'. Esse estilo permite que evite seus ataques de cólera. Tenta ser pedagogo, é como un velho professor que dá aulas sobre o mundo e suas mudança", analisa um de seus antigos companheiros do PS.

Depois de atuar como militante estudantil, Jean-Luc Mélenchon, de tendência trotskista, se uniu ao Partido Socialista aos 25 anos. Foi senador por Essonne, subúrbio parisiense, antes de se transformar em ministro-delegado do Ensino Superior (2000-2002).

Abandonou os socialistas em 2008 e criou seu próprio movimento, o Partido de Esquerda. Fez uma aliança com os comunistas e conseguiu 11,1% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais de 2012.

Mas fracassou nas legislativas, quando enfrentou cara a cara em suas terras do norte da França com sua inimiga número um, a líder da extrema direita Marine Le Pen, com quem disputa o eleitorado popular e operário.

"O paradoxo de Jean-Luc Mélenchon está ligado ao conceito do povo. Tenta combinar seu povo ideal, aquele pelo qual luta, os desamparados, os desempregados, os assalariados... com o povo que realmente vai a seus eventos, que muitas vezes pertence a categorias sociais e profissionais mais altas: empregados, funcionários ou professores", diz a pesquisadora Cécile Alduy.

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