O exílio berlinense da casa de Rosa Parks

Berlim, 4 Mai 2017 (AFP) - Nos anos 1950, Rosa Parks, pioneira dos direitos civis nos Estados Unidos, teve que fugir do sul americano em direção a Detroit. Cerca de 60 anos depois, foi a sua casa que encontrou um asilo inesperado: Berlim.

O artista americano Ryan Mendoza, instalado na capital alemã, realizou um projeto um tanto louco: desmontou uma casa de dois andares desocupada havia anos que ia ser demolida e a trasladou em contêineres ao seu jardim do bairro berlinense de Wedding, para reconstruí-la.

Para o pintor, de 45 anos, esta odisseia reflete o contraste entre a realidade do seu país de origem, onde a eleição de Donald Trump à presidência revelou e acentuou as divisões sociais, e a Alemanha, que nos últimos dois anos acolheu mais de um milhão de solicitantes de asilo que fugiam da guerra e da miséria.

"Ignorando esta casa, os Estados Unidos mostraram seu menosprezo pelos direitos civis", disse Mendoza à AFP.

Em 1955, Rosa Parks, uma costureira negra de 42 anos, se negou a ceder seu assento a um branco em um ônibus de Montgomery, no Alabama, como estava previsto na lei neste estado do sul do país, dando início a um amplo movimento que levou à abolição da segregação racial nos Estados Unidos.

Mas as ameaças de morte a obrigaram a fugir para Detroit, mais de 1.000 quilômetros ao norte, uma cidade industrial então em pleno auge, onde viveu até sua morte, em 2005, quando tinha 92 anos. Nunca voltou a morar no Alabama.

- Família de acolhida -"Os direitos civis não são importantes apenas para os negros, mas também para os brancos que querem se afastar de seus antepassados racistas. Os alemães entenderam perfeitamente o que esta casa tem a dizer", explica.

"Talvez não seja uma coincidência que a cidade que acolhe esta casa tenha nascido de um muro que foi destruído e que o país que a perdeu seja esse que tanto quer construir um", reflete o artista, em alusão ao muro que Trump quer erguer na fronteira com o México.

Abandonada, a modesta casa de três quartos ia ser demolida quando a sobrinha de Rosa Parks, Rhea McCauley, de 69 anos, a comprou por uma miséria (500 dólares). Ela não conseguiu, porém, dinheiro para restaurar o imóvel.

Foi então que Ryan Mendoza teve a ideia de trasladar a casa. Sua esposa, Fabia, já tinha participado de um projeto artístico que envolveu o deslocamento de uma construção de um lado ao outro do Atlântico.

O casal se considera a "família de acolhida" da casa de Parks.

"Eu amo eles pelo que fizeram pela mia tia", diz à AFP por telefone McCauley, uma artista aposentada que mora nos Estados Unidos.

Mendoza passou 18 dias do verão passado desmontando a casa, enviou os pedaços em contêineres e a reconstruiu em seu próprio jardim.

Para realizar seu projeto, Mendoza procurou, em vão, a ajuda de instituições americanas, assim como da ex-primeira-dama Michelle Obama. No fim das contas, teve que pagar do próprio bolso toda a operação, que custou mais de 30.000 dólares.

O artista espera devolvê-la "o mais rápido possível" a Detroit para que seja "reabilitada dignamente".

Mas Rhea McCauley, muito crítica à administração Trump, acha que seria bom que a casa ficasse um tempo no seu exílio em Berlim. Os Estados Unidos "não estão preparados para a tia Rosa. Eu prefiro esperar o país crescer", lamenta.

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