Oposição venezuelana volta às ruas contra Constituinte de Maduro

Caracas, 4 Mai 2017 (AFP) - As forças de segurança e manifestantes voltaram a se enfrentar na Venezuela nesta quarta-feira, em mais um dia de violentos protestos contra o presidente Nicolás Maduro e sua decisão de convocar uma Assembleia Constituinte.

Armando Carrizales, de 18 anos, morreu em meio à repressão aos manifestantes em Caracas, elevando a 32 o número de óbitos em mais de um mês de manifestações contra Maduro.

"O jovem teve um trauma penetrante (tiro) no pescoço sem saída que produziu uma parada cardiorrespiratória. Faleceu quando era socorrido", disse Gerardo Blyde, prefeito de Baruta, sobre o incidente ocorrido em Las Mercedes, no leste da capital, onde houve uma batalha campal entre policiais e manifestantes.

Nos arredores da Praça Altamira, na mesma zona, outro manifestante foi gravemente queimado durante os protestos desta quarta-feira, constatou a AFP no local.

O jovem, que foi socorrido e levado a um hospital por paramédicos, teve o corpo queimado acidentalmente quando outro manifestante lançou gasolina sobre uma motocicleta da Guarda Nacional.

Apoiados por caminhões blindados, militares e policiais pressionaram a multidão, com gás e com jatos d'água, na autoestrada Francisco Fajardo, no leste de Caracas. Jovens, alguns encapuzados, reagiram com pedras e com barricadas em chamas. Várias pessoas ficaram feridas, incluindo dois deputados da oposição.

No centro da capital, cujo acesso é bloqueado aos opositores, Maduro liderava um ato para milhares de seguidores, depois de entregar ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) o decreto para instaurar a Assembleia Constituinte. Por meio dele, o Executivo espera conseguir fazer alterações na Constituição de 1999.

"Convoco uma Assembleia Nacional Constituinte cidadã e de profunda participação popular para que nosso povo, como depositário do Poder Constituinte originário, possa, com sua voz, decidir o destino da Pátria", disse o presidente no CNE.

Maduro garante que a eleição dos 500 constituintes será feita "livremente, pelo voto universal, direto e secreto", nas "próximas semanas", em setores da sociedade e dos municípios. Metade deles deverá ser escolhida por setores sociais, nos quais o governo tem influência.

Segundo seus adversários e na visão de especialistas constitucionalistas, isso significa uma eleição "fraudulenta", e "não universal".

"É uma fraude madurista. Como não podem ganhar eleições, querem impor o modelo eleitoral cubano para se perpetuar no poder", garantiu o líder da oposição Henrique Capriles, convocando seus correligionários nas ruas.

"Todas as ditaduras caem. Esta pantomima que deseja convocar não pode tirar nossa maior força: o povo na rua", declarou o vice-presidente do Parlamento, Freddy Guevara.

- Nova explosão de violência -Encurralados pelos agentes e em meio a uma nuvem de gás lacrimogêneo, a multidão gritava "malditos" e "assassinos", nos fortes confrontos registrados esta tarde em Altamira, leste da capital.

"Constituinte, sim, 'guarimaba' [protesto violento], não", gritou Maduro para seus seguidores.

No ato, ele foi acompanhado da presidente do CNE, Tibisay Lucena, acusada pela oposição de servir ao governo. Em discurso, Lucena declarou que a Constituinte "trará paz ao país".

Para Maduro, uma "insurgência armada" surgiu da oposição, com o objetivo de derrubá-lo com um "golpe de Estado". Por esse motivo, justificou, decidiu convocar a Constituinte.

"Surgiu das fileiras da oposição uma insurgência armada fascista, antipopular, que levantou suas armas contra a República, e a República tem direito de se defender contra o terrorismo", declarou no comício no centro de Caracas.

Em seu discurso, o presidente disse ter "ordenado que se ativem operações de busca dos grupos armados".

Enquanto Maduro falava, milhares de opositores tentaram chegar ao Legislativo, mas foram dispersados por policiais e militares com bombas lacrimogêneas.

O presidente socialista garantiu que sua proposta de Constituinte "cidadã e popular" busca promover a paz.

"Enquanto eles convocam a violência, eu convoco a Constituinte. Enquanto ativam grupos violentos, eu convoco o povo (...) Estamos derrotando o golpe fascista", indicou.

"Nas próximas semanas, teremos eleições. Queriam eleições? Querem votar? Vamos votar. Queriam diálogo? Tomem Constituinte", disparou Maduro.

- 'Uma Constituinte de paz' -Trinta e duas pessoas morreram, e centenas ficaram feridas, em incidentes violentos vinculados aos protestos, como os confrontos entre manifestantes e forças de segurança, tiroteios e saques. Governo e oposição se acusam mutuamente.

Para esta quinta-feira, estudantes universitários convocaram um grande protesto, partindo das diversas instituições de ensino em todo o país.

"O movimento estudantil, a partir das distintas universidades do país, seguirá mobilizado e cada universidade liderará um protesto exigindo democracia e liberdade", disse em entrevista coletiva Daniel Ascanio, da Universidade Simón Bolívar.

Segundo Maduro, "a oposição decidiu ir para o extremismo. Hoje, estão na fase de passar para uma insurgência armada e, ante esta grave circunstância, o único caminho para garantir a paz é uma Assembleia Nacional Constituinte".

O líder socialista disse ter feito tudo por um diálogo, mas os opositores "se negaram mil vezes".

"Estendo a eles uma mão salvadora para que venham à Constituinte da paz", acrescentou.

Para alguns analistas, porém, a convocação de Maduro pode piorar o conflito, que já desperta grande preocupação na comunidade internacional.

Argentina, Chile e Estados Unidos consideraram que a Constituinte agravará a crise. O Brasil a classificou de "golpe", e o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, viu a saída anunciada por Maduro como "fraudulenta".

Hoje, um grupo bipartidário de senadores americanos apresentou um projeto de lei que prevê sanções com funcionários venezuelanos acusados de minar a democracia.

O papa Francisco ofereceu ajuda para um "diálogo", mas com "condições claras". Na terça-feira, os países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) apoiaram, em reunião em San Salvador, uma saída negociada para a crise.

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