Rebeldes sírios deixam pela primeira vez bairro de Damasco

Damasco, 8 Mai 2017 (AFP) - Rebeldes sírios e suas famílias aceitaram, pela primeira vez desde 2011, deixar um bairro de Damasco após serem alvos de intensos bombardeios, permitindo ao regime fortalecer seu controle sobre a capital.

No mesmo dia, a ONU anunciou que uma nova rodada de negociações sobre a Síria começará em 16 de maio em Genebra.

A partida dos rebeldes acontece dias após a entrada em vigor do acordo de Astana (Cazaquistão) entre a Rússia e o Irã, aliados de Bashar al-Assad, e Turquia, que apoia a rebelião, que prevê a criação de quatro "zonas de desescalada" na Síria, onde os protagonistas devem cessar as hostilidades.

O regime de Bashar al-Assad deixou claro que não permitirá que a ONU ou forças internacionais supervisionem a implementação do acordo russo-turco-iraniano assinado no sábado.

Moscou apresentou à ONU um projeto de resolução para apoiar este acordo, mas os ocidentais expressaram reservas.

Os Estados Unidos estão estudando a proposta da Rússia para ver se é viável ou não, indicou a este respeito o secretário de Defesa americano, Jim Mattis, nesta segunda-feira.

Este acordo é o último de uma série de iniciativa para tentar acabar com a guerra que devasta a Síria e que já fez 320.000 mortos e milhões de deslocados e refugiados, tornando-se cada vez mais complexo com o envolvimento de atores internacionais e grupos extremistas.

Pela primeira vez desde o início do conflito, os rebeldes aceitaram deixar um dos seis bairros que controlam em Damasco.

"Homens armados e membros das suas famílias começaram a deixar Barze a bordo de 40 ônibus em direção ao norte da Síria, e esta operação vai continuar por cinco dias", informou a televisão estatal síria.

De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), entre 1.400 e 1.500 combatentes e suas famílias devem deixar a capital para Idlib, província do noroeste do país sob controle dos rebeldes e jihadistas.

Mais de 1.000 partidasSegundo o governador de Damasco, citado pela televisão estatal, 1.022 pessoas, incluindo 568 combatentes e suas famílias, já deixaram a capital.

O acordo de evacuação de Barze, um bairro que antes do início da crise tinha 48.000 habitantes, foi concluído domingo à noite, e dezenas de pessoas se reuniram ao amanhecer para se preparar para partir.

Um fotógrafo viu rebeldes carregando suas armas de pequeno porte, bem como crianças e mulheres usando lenços brilhantes empurrando malas e carregando sacolas.

Uma fonte das Forças de Defesa Nacional, pró-governamentais, afirmou que se permitiria aos rebeldes levar consigo suas armas pessoais.

Negociações também estão em andamento para a evacuação dos rebeldes de Qaboun, um bairro do noroeste da capital, transformado nos últimos meses em um verdadeiro campo de batalha.

A maior parte de Damasco está sob controle do regime, com a exceção de seis bairros periféricos: Barze, Qaboun, Jobar, Tadamun, Yarmuk e Techrin.

Em fevereiro, o geógrafo francês especialista na Síria, Fabrice Balanche, indicou que "a rebelião havia perdido definitivamente Damasco".

"Os mais racionais (dos rebeldes) tentam agora negociar com o governo sírio sua anistia. Quanto aos outros, não têm nenhuma outra esperança do que a ser transferido para Idlib", disse ele.

Várias operações de evacuação de insurgentes e suas famílias foram realizadas em várias localidades da província de Damasco, mas esta é a primeira vez que tal operação é realizada na capital.

Os insurgentes, que perderam vastas regiões para o regime, apoiado militarmente pela Rússia e Irã, foram forçados a assinar muitos acordos de evacuação de seus redutos.

Reservas ocidentaisNa ONU, em Nova York, os países ocidentais no Conselho de Segurança expressaram reservas quanto ao projeto de resolução da Rússia, que "apela todos os Estados membros a contribuir de boa fé com a implementação do acordo sobre a criação de zonas de desescalada".

"Queremos ver as cartas. Precisamos de muitos mais detalhes", explicou um diplomata que não quis se identificar.

Segundo o acordo, Rússia, Irã e Turquia têm até 4 de junho para determinar as fronteiras exatas dessas zonas, que serão acompanhadas de "áreas de segurança", com postos de controle e centros de supervisão mantidos conjuntamente pelas "forças dos países patrocinadores" e possivelmente "outras partes".

Este acordo deverá ser discutido pelos chefes da diplomacia americana e russa, Rex Tillerson e Sergueï Lavrov, na quarta-feira em Washington.

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