Tropa de choque volta a usar gás lacrimogêneo contra protesto na Venezuela

Caracas, 9 Mai 2017 (AFP) - A tropa de choque voltou a usar bombas de gás lacrimogêneo para reprimir uma marcha de milhares de opositores que queriam chegar ao centro de Caracas, em repúdio a uma Assembleia Constituinte convocada pelo presidente Nicolás Maduro, confrontado a uma onda de protestos que deixou 36 mortos em quase 40 dias.

Jovens manifestantes encapuzados responderam com pedras e coquetéis molotov às forças de segurança, em confrontos registrados em várias regiões do leste de Caracas e perduravam no fim da tarde perto da base militar La Carlota.

Também foram reportados enfrentamentos nos estados de Mérida, Lara e Zulia (oeste). Na capital deste último, Maracaibo, bombas de gás atingiram, inclusive, uma escola.

Em Mérida, dois civis e um policial foram baleados durante os protestos.

A Mesa da Unidade Democrática (MUD) convocou seus simpatizantes a marchar até o Ministério da Educação para expor as razões pelas quais se opõe à Constituinte, após decidir se ausentar de uma reunião no palácio presidencial de Miraflores, onde o governo discute a iniciativa com setores políticos.

"Isto não é uma Constituinte, é uma farsa, uma fraude, um truque para se perpetuar no poder. O voto é a única saída para este desastre na Venezuela", declarou durante o protesto Julio Borges, presidente do Parlamento, único poder controlado pela oposição.

Em Miraflores, o ministro da Educação, Elías Jaua, delegado por Maduro para impulsionar a Constituinte, pediu reflexão à MUD e para aceitar o diálogo. Ao final da tarde, recebeu uma carta da oposição, que ele interpretou como uma desculpa para continuar com a violência.

Maduro reagiu criticando a negativa da MUD: "Um presidente convoca os líderes da oposição e eles dizem 'não vamos' e saem para queimar o leste de Caracas. Isto é política?! Democracia?!, Isto se chama fascismo"!

No centro de Caracas concentrou-se uma multidão de seguidores do governo.

"Estamos defendendo a Constituinte para aprofundar a revolução de Hugo Chávez", disse o jovem Alejandro Seguías, ao afirmar que Maduro reforçará a Carta Magna impulsionada pelo falecido presidente socialista (1999-2013).

"Isso não pode continuar assim!"Mais de 70% dos venezuelanos, segundo pesquisas privadas, rejeitam o governo Maduro, cansados do colapso econômico que gera uma severa escassez de alimentos e remédios, e da inflação mais alta do mundo, que chegaria a 720% em 2017, segundo o FMI.

"Perdi meu marido porque não conseguimos remédios. Não há medicamentos, não há comida. Isso não pode continuar assim", assegurou Isabel Morales, de 68 anos, na passeata.

Para o analista Luis Vicente León, o governo sabe que seu apoio é minoritário e uma Constituinte lhe permite "paralisar" eleições e "defenestrar os poderes que fazem barulho contra ele", como o Parlamento.

A MUD rejeita que Maduro pretenda eleger a Constituinte com um processo misto que não garanta o voto universal. A metade dos 500 constituintes por votação de setores que, assegura, o governo controla, enquanto o restante seria escolhido em eleições municipais.

Após as reuniões com setores sociais, o presidente apresentará as bases da eleição dos constituintes do que chama de uma Constituinte popular, que, assegura, "rompe os esquemas da democracia formal burguesa".

Mas a oposição também conta entre seus seguidores com estudantes, trabalhadores, empregadores e outros setores sociais que se recusam a participar de um processo considerado uma "fraude constitucional".

Em meio à tensão social, a ONG Fórum Penal denunciou que pelo menos 50 civis foram presos por ordem de tribunais militares venezuelanos, que os acusam de supostos crimes cometidos durante protestos e saques.

Via livre para o governoAnalistas como Luis Salamanca alertam para o risco de a oposição deixar o caminho livre para o governo mudar a Constituição, mas outros, como Leon, opinam que "qualquer participação da oposição validaria um evidente processo de ruptura democrática na Venezuela".

"Se Maduro quer uma Constituinte, que pergunte ao povo em referendo", disse o líder opositor Henrique Capriles durante a marcha.

O especialista em temas eleitorais Eugenio Martínez considerou possível um cenário como o de 2005, quando a oposição se marginalizou das eleições parlamentares, deixando o caminho livre para a situação aprovar leis de corte socialista.

"A grande diferença é que então não havia uma ruptura da ordem constitucional em andamento", disse Martínez.

A proposta de Assembleia Constituinte também provocou condenação internacional. Apesar da decisão da Venezuela de deixar a Organização dos Estados Americanos (OEA), a entidade mantém para 22 de maio uma reunião de chanceleres para discutir a crise no país.

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