Lula e Moro frente a frente em um julgamento que mobiliza o país

Curitiba, 10 Mai 2017 (AFP) - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva presta depoimento nesta quarta-feira em Curitiba ao juiz federal de primeira instância Sérgio Moro, encarregado da operação "Lava Jato", no âmbito de um julgamento que pode acabar com suas pretensões de voltar ao poder em 2018.

Presidente de 2003 a 2010, Lula, de 71 anos, entrou na sede da Justiça Federal de Curitiba pouco antes das 14h00, cercado por um importante esquema de segurança e saudado por centenas de partidários que se mobilizaram para dar seu apoio.

A audiência é celebrada a portas fechadas e a filmagem do interrogatório deverá ser divulgada horas depois de terminada.

Moro buscará determinar se Lula é proprietário de um tríplex no balneário do Guarujá, em São Paulo, que teria recebido da empreiteira OAS em troca de "vantagens indevidas".

O ex-sindicalista e cofundador do Partido dos Trabalhadores (PT), vestindo terno escuro e gravada com as cores do Brasil, saudou seus fervorosos partidários, que repetiam em coro "Lula, guerreiro do povo brasileiro!". A caminho do tribunal, foi visto junto a um grupo, exibindo uma bandeira brasileira.

Os manifestantes não conseguiram se aproximar do tribunal, cercado por centenas de policiais.

O acesso foi interditado inclusive para os moradores desta área de Curitiba, apelidada de "a capital da Operação Lava Jato", que investiga o esquema de propinas pagas por empreiteiras a políticos e partidos em troca de licitações na Petrobras.

A sentença deverá ser conhecida em um prazo de 45 a 60 dias, embora alguns analistas afirmem que poderá sair em apenas um mês.

O caso, conhecido como o "apartamento do Guarujá", é um dos cinco que pesam até o momento contra Lula por corrupção passiva, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e obstrução da Justiça.

De acordo com a legislação, Lula não poderá se candidatar às eleições de outubro de 2018 se uma eventual condenação em primeira instância for ratificada na segunda. Este processo costuma levar um ano.

O ex-presidente nega todas as acusações e afirma que se trata de uma perseguição que pretende impedi-lo de voltar ao poder. As pesquisas de opinião o apontam como o grande favorito, embora também mostrem que ele é um dos políticos com maiores índices de rejeição.

- Polarização -Moro, de 44 anos, considerado um ícone da luta contra a corrupção, tinha pedido que seus apoiadores ficassem em casa e evitassem confrontos.

Mas nem todos seguiram seus conselhos e alguns grupos se manifestaram com um boneco gigante representando Lula com roupa de presidiário, enquanto repetiam "Lula, ladrão, seu lugar é a prisão".

"Hoje é um dia importantíssimo porque uma personalidade da importância de um ex-presidente está aqui como acusado e não como convidado", disse Marli Resende, uma professora aposentada de 59 anos.

O presidente conservador Michel Temer, acusado de "golpista" pelo PT, pediu nesta quarta-feira que se supere a polarização do país, em recessão há dois anos e com um índice recorde de desemprego de 13,7% ou 14,2 milhões de desempregados.

Os brasileiros têm que "eliminar certa raiva", disse Temer em Brasília. "Precisamos pacificar o país. Precisamos ter mais tranquilidade. Não podemos permanecer na nossa posição de permanente enfrentamento entre brasileiros", declarou, sem se referir expressamente ao processo de seu antecessor, que durante anos também foi seu aliado.

- Nas ruas e nas redes -A batalha entre seus partidários e críticos se intensificou nas redes sociais, através das hashtags "#LulaEuConfio" e "#MoroOrgulhoBrasileiro".

Na primeira, manifestou-se sua afilhada política e sucessora Dilma Rousseff, destituída em 2016, acusada de manipular contas públicas. Ela viajou a Curitiba para apoiar seu mentor.

"Já estou em Curitiba para prestar minha total solidariedade ao presidente @LulapeloBrasil. A verdade vai prevalecer. #LulaEuConfio", tuitou a ex-presidente.

"Acho que ele é inocente. Se tivessem algo concreto, não temos dúvidas que ele já estaria preso. Entendemos que é uma luta de classes que está sendo travada", disse à AFP Gérson Castellano, 50 anos, líder sindical da federação única dos petroleiros.

O Ministério Público acusa Lula de ter recebido 3,7 milhões de reais da OAS, incluindo o apartamento no Guarujá e o custeio do armazenamento de seus bens pessoais e de seu acervo presidencial entre 2011 e 2016.

"O ex-presidente está preparado para dar seu depoimento ao juiz Moro. E vai com a força da verdade", disse à AFP seu advogado, Cristiano Zanin Martins.

Apesar do consenso generalizado entre analistas de que Lula será condenado em primeira instância, Martins sustenta que nenhuma das acusações foi provada, embora a Procuradoria-geral o aponte como o "comandante máximo" do esquema de propinas montado na Petrobras.

"Lula não teve nenhuma participação em um esquema ilícito na Petrobras. Nada demonstra que isto ocorreu. Ao contrário, as provas demonstram sua inocência. E aí é que se constata que é um assunto político", acrescentou o advogado.

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