Temer se agarra ao poder e adverte para risco de crise no País

Brasília, 19 Mai 2017 (AFP) - O presidente Michel Temer se agarrava nesta quinta-feira ao cargo, apesar das graves acusações de corrupção surgidas contra ele, em meio à debandada de sua base aliada, que já provocou a primeira baixa em seu gabinete: a do ministro da Cultura, Roberto Freire.

"Não renunciarei, repito, não renunciarei!" - exclamou o chefe de Estado, em pronunciamento à nação declarando ser inocente, depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a abertura de um inquérito sobre as denúncias surgidas na véspera.

Temer foi gravado secretamente pelo empresário Joesley Batista, dono da gigante alimentícia JBS, em uma reunião onde falava sobre o pagamento de propina para o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, preso durante a Operação Lava Jato.

A gravação foi entregue ao STF como parte da delação premiada de Batista e, nesta tarde, foi divulgada publicamente.

No áudio, Temer pede "cuidado" ao empresário para não parecer "obstrução da justiça" em seus contatos com um de seus ex-ministros investigados na Lava Jato, que aparentemente estava presente no pagamento da propina, e quando Batista lhe diz que estava bem com Cunha, ouve-se o presidente falar: "tem que manter isso, ok?"

Temer, com a popularidade em baixa, assegurou que nunca autorizou o pagamento de propinas nem comprou "o silêncio de ninguém" e revindicou "o otimismo" gerado por sua gestão, que pretende tirar o Brasil da pior recessão de sua história a partir de medidas de austeridade.

O presidente citou melhoras nas cifras de inflação, de desemprego e de crescimento econômico, desde que há um ano assumiu o poder.

Mas uma "conversa gravada clandestinamente trouxe de volta o fantasma da crise política de proporção ainda não dimensionada", lamentou.

"Não podemos jogar no lixo a história de tanto trabalho feito em prol do país", afirmou o presidente que, ao se manter no poder, conserva seu foro privilegiado evitando ser julgado pela justiça comum.

De fato, exigiu ao STF uma investigação "plena e muito rápida" para provar sua inocência.

Enquanto os partidos que apoiam seu governo estudam se irão manter seu apoio, o ministro da Cultura, Roberto Freire, do Partido Popular Socialista (PPS), renunciou ao cargo diante da "instabilidade política" e voltará a ocupar sua cadeira na Câmara dos Deputados.

Oito deputados já apresentaram pedidos de impeachment e vários partidos, incluindo alguns que votaram pela destituição de Dilma Rousseff, se apressam para solicitar o mesmo tratamento contra Temer, que se propõe a passar o comando do país para o vencedor das eleições presidenciais de outubro de 2018.

- "Diretas já!" -Mas nas ruas, milhares de pessoas protestaram nesta quinta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro aos gritos de "Fora Temer!" e "Diretas já!", uma expressão que mobilizou os brasileiros ao fim da ditadura militar.

"Acredito que deve haver eleições diretas já. É muito duro, porque o Brasil precisa melhorar em vários aspectos, mas a única medida razoável é que as pessoas escolham um novo presidente", disse à AFP Patricia Zerbinato, uma produtora de cinema de 44 anos, que se manifestava no Rio.

Ao fim do protesto no Rio, policiais e manifestantes entraram em confronto e criaram uma situação de caos no centro da cidade. Os militantes jogaram pedras e os agentes responderam com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.

Os movimentos que levaram milhões de pessoas a pedir a saída de Dilma também pedem que o povo volte às ruas para punir os "corruptos".

Diante da incerteza, a Bolsa de São Paulo suspendeu suas operações por meia hora durante a manhã e fechou com uma queda de 8,8%. O real também caiu, 7,55%.

- O futuro de Temer -A agitação judicial, política, social e econômica gera todo o tipo de especulação sobre o desenrolar desta crise.

Embora Temer tenha anunciado que não renunciará, muitos se questionam o que poderia acontecer no caso de o STF decidir condená-lo mais rapidamente do que o esperado ou de o mandatário sofrer um impeachment.

A Constituição prevê que no caso de vacância da Presidência durante a segunda metade do mandato, o Congresso deve escolher um nome para completá-lo. Uma perspectiva preocupante, dado o elevado número de legisladores sob suspeita de corrupção. Existem interpretações e propostas que também permitiriam adiantar as eleições.

"Temer não tem imunidade, mas pode contar com uma proteção política mais ou menos forte. Hoje, a grande pergunta é se os partidários que formam a base do governo deixarão ou não o governo", disse à AFP Thomaz Pereira, professor de Direito Constitucional da Fundação Getúlio Vargas.

Entretanto, pelas mesmas gravações do empresário Joesley Batista, o STF suspendeu de seu cargo o senador Aécio Neves, candidato derrotado na eleição de 2014 e presidente do PSDB, aliado-chave do governo Temer.

bur-csc/cb/lr

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