Temer diz ter sido ingênuo em escândalo que pode lhe custar o cargo

Brasília, 23 Mai 2017 (AFP) - O presidente Michel Temer disse ter sido ingênuo ao receber um dos donos da JBS, Joesley Batista, que gravou secretamente uma conversa comprometedora entre os dois, e reiterou que não vai renunciar, porque seria admitir culpa no escândalo que mantém o Brasil em suspense.

Encurralado por uma sequência de pedidos de impeachment e com sua base aliada enfraquecida, Temer, de 76 anos, deu sua primeira entrevista longa depois da divulgação das gravações que provocaram um escândalo que pode acabar com seu mandato.

Perguntado pelo jornal Folha de S. Paulo sobre sua culpa no atual terremoto político, um ano após o impeachment de Dilma Rousseff, Temer disse que "foi ingênuo ao receber uma pessoa naquele momento".

O escândalo explodiu quando o colunista Lauro Jardim revelou, na noite de quarta-feira, uma gravação em que Joesley Batista, um dos donos da maior empresa de carnes do mundo, a JBS, aparentemente recebe o aval do presidente para pagar propina em troca do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, que está preso em Curitiba.

A reunião ocorreu em 7 de março passado, por volta das 23h, no Palácio do Jaburu, residência do presidente em Brasília.

Acusado pela Procuradoria Geral da República (PGR) de obstrução da Justiça, corrupção passiva e organização criminosa, muitas vozes pedem sua renúncia.

A principal é a da Ordem de Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo, que esta semana apresentará pedido de "impeachment" de Temer ao Congresso. Serão dez, contando com os já apresentados por deputados.

O presidente tenta manter, porém, as alianças de seu partido, o PMDB, e busca impedir que algum desses pedidos prospere.

Até agora, apenas partidos pequenos abandonaram Temer, mas o apoio de seu principal parceiro de governo, o PSDB, está por um fio.

Mudança de estratégiaEm uma crise em que cada minuto conta, o próximo "dia D" seria na quarta-feira (24), quando o Supremo Tribunal Federal (STF) avaliaria o pedido de suspender as investigações sobre Temer, sob o argumento de que o áudio entregue por Batista à Justiça em sua delação premiada foi editado.

No entanto, a presidente do Supremo, Carmen Lúcia, decidiu hoje, segunda-feira, que a máxima corte tomará sua decisão somente quando a Polícia Federal concluir a perícia do material entregue por Batista, cujo gravador deve chegar nesta terça-feira ao Brasil. Joesley se encontra nos Estados Unidos.

No domingo, Temer conseguiu ganhar tempo com o cancelamento da reunião, na qual o PSDB poderia anunciar sua saída do governo. Para aumentar o suspense, o novo presidente tucano, Tasso Jereissati, assegurou que seu partido vai esperar as conclusões da Justiça para se definir.

Além das investigações no STF, Jereissati mencionou que o PSDB também aguarda a retomada do julgamento previsto a partir de 6 de junho no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de uma denúncia que pode levar à anulação da chapa Dilma-Temer, vencedora da eleição presidencial de 2014.

Efeitos na BolsaEnquanto se discute nos bastidores, a nova crise política também ameaça dificultar a saída do País da pior recessão de sua história.

Nesta segunda-feira, as ações da JBS desabaram na Bolsa de São Paulo, com um tombo de -31,34%, contribuindo para a queda de -1,54% do Ibovespa.

A Bolsa e o real já haviam despencado na quinta-feira, depois da revelação do escândalo. O presidente assegura que Batista lucrou com esses casos, ao comprar US$ 1 bilhão e vender parte de suas ações da JBS no dia seguinte.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu cinco processos administrativos contra o grupo de Batista por suspeitas de manipulação de informação privilegiada nos mercados.

No meio da tempestade, Temer pede calma e espera aprovar esta semana alguma das leis que tinha na agenda do Congresso para demonstrar força.

"Mantenho a serenidade, especialmente na medida em que eu disse: eu não vou renunciar. Se quiserem, me derrubem, porque, se eu renuncio, é uma declaração de culpa", declarou na entrevista à Folha publicada hoje.

O presidente encerra a entrevista com uma observação surpreendente, brincando sobre os dois discursos recentes, em tom firme, que deu para declarar sua inocência.

"Acho, acho que eles gostaram desse novo modelito. As pessoas acharam que 'enfim, temos um presidente'", disse Temer, em meio a risos.

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