Oposição venezuelana desafia Maduro pela oitava semana

Caracas, 23 Mai 2017 (AFP) - A disputa entre a oposição e o governo de Nicolás Maduro recrudesceu nesta segunda-feira, com milhares de pessoas ocupando as ruas da Venezuela, no 52º dia de violentos protestos para exigir a saída do presidente, que já deixaram 51 mortos e quase mil feridos.

Uma "chuva" de bombas de gás lacrimogêneo deteve uma passeata de mais de 20 mil pessoas, segundo cálculos da AFP, liderada pela Federação Médica Venezuelana (FMV), que foi às ruas para protestar contra a "catastrófica" situação dos hospitais diante da falta de insumos e medicamentos.

A passeata se dirigia ao ministério da Saúde em Caracas.

"Esta é a única opção que temos (continuar nas ruas). Se eu tenho medo? Dá mais medo continuar vivendo. Você tem ido a algum supermercado? Não tem leite, não tem nada. Isso é vergonhoso", queixou-se o clínico geral Raúl, de 64 anos.

"A saúde é um desastre. Estamos no pior estado dos últimos 30 anos. Sempre dá medo vir, mas continuaremos fazendo isso até que tenha uma mudança", disse à AFP Fernando Gudayol, um cirurgião de 50 anos., para protestar contra a "catastrófica" situação dos hospitais, onde faltam insumos, equipamentos e remédios.

Em Barinas, estado natal do finado presidente Hugo Chávez, três pessoas morreram baleadas nos protestos desta segunda-feira, incluindo dois jovens, de 19 e 22 anos, segundo o Ministério Público.

O vice-presidente, Tareck El Aissami, responsabilizou "grupos armados" ligados à oposição pelo incêndio da sede regional do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) em Barinas.

Segundo El Aissami, os mesmos grupos atacaram destacamentos da Guarda Nacional e da polícia regional, além de saquearem lojas e um armazém de medicamentos.

O centro financeiro de Caracas foi inundado com cartazes com a palavra "Resistir" sob as três cores da bandeira venezuelana, e faixas diziam "chega de fome, chega de insegurança, chega de repressão", e outras desafiavam o governo: "Vamos ver quem se cansa primeiro".

Enquanto isso, partidários do chavismo se concentraram no palácio presidencial de Miraflores, onde eram recebidos por Maduro. O presidente convocou uma passeata "pela paz" para terça-feira.

- Dobrar a aposta -A oposição tem o desafio de atrair os manifestantes, apesar da violência, das enormes filas para conseguir alimentos e do trânsito paralisado pelos protestos.

"É difícil manter a onda de protestos. As pessoas precisam trabalhar, estudar, comer e viver suas vidas. É preciso de uma estratégia para capitalizar esse movimento", advertiu à AFP David Smilde, assessor principal do Washington Office on Latin America (Wola), especializado em Venezuela.

Tudo isso em meio ao colapso econômico e a uma inflação que, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), atingirá 720% este ano.

De acordo com o último balanço da Procuradoria, os protestos deixaram 49 mortos, quase mil feridos e 2.660 detidos, dos quais pelo menos 161 seguem presos - de acordo com a ONG Foro Penal - por ordens de tribunais militares.

No sábado, mais de 160.000 pessoas - segundo os organizadores - se reuniram na principal estrada de Caracas e tentaram caminhar em direção ao Ministério do Interior. Eles foram dispersados com bombas de gás lacrimogêneo e responderam com pedras e coquetéis molotov.

Além disso, mais de 40.000 pessoas (de acordo com estimativas da AFP) protestaram na cidade de San Cristobal, estado de Táchira, na fronteira com a Colômbia, para onde Maduro ordenou o envio de 2.600 militares depois de tumultos e saques.

No domingo, Maduro denunciou que manifestantes espancaram, esfaquearam e queimaram um jovem durante uma manifestação em Caracas por acreditarem "ser chavista".

"Nunca havíamos visto aqui uma pessoa ser queimada como fazem os terroristas do Estado Islâmico", denunciou Maduro em seu programa semanal.

A oposição afirma que o jovem foi atacado por estar roubando.

Ao comentar a morte do jovem, a chanceler Delcy Rodríguez afirmou nesta segunda-feira que "estas expressões de ódio propiciam um enfrentamento fratricida e são o linchamento de um setor social (...). O chavismo está sendo vítima na Venezuela e em nível internacional de uma perseguição por razões políticas e ideológicas".

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