Venezuela desvaloriza sua moeda para enfrentar a crise

Caracas, 1 Jun 2017 (AFP) - A Venezuela desvalorizou o bolívar em 64,13% na tentativa de mitigar a grave crise econômica, que tem reforçado os protestos contra o presidente Nicolás Maduro e sua convocação de uma Assembleia Constituinte, que já deixou 60 mortos em dois meses.

A taxa de câmbio do chamado dólar Dicom ficou em 2.010 bolívares, anunciou Pedro Maldonado, diretor do Banco Central da Venezuela (BCV), em comparação à taxa de 721 vigente antes do novo sistema de oferta de divisas em leilões.

Ao considerar a operação satisfatória, Maldonado, presidente do Comitê de Leilões de Divisas do BCV, afirmou que a operação é uma amostra "inequívoca de um processo de recuperação econômica".

Mas a oposição considera que Maduro está recorrendo a tudo para "se oxigenar", em meio aos protestos em massa que exigem sua saída do poder como única solução à profunda crise política e econômica do país.

Qualificado pelos opositores como um "salva-vidas" para um governo que chamam de "ditadura", o banco Goldman Sachs comprou bônus da estatal petroleira venezuelana PDVSA emitidos em 2014 e com o vencimento em 2022 a 865 milhões de dólares, quando originalmente valem 2,8 bilhões, 69% a mais.

A Venezuela, o país com as maiores reservas petrolíferas do planeta, vive uma penúria de dólares, que se acentuou com a queda dos preços do petróleo, fonte de 96% das divisas, e uma severa escassez de alimentos e medicamentos.

Um total de 24 milhões foram vendidos no leilão, 23 milhões deles principalmente a empresas importadoras de matérias primas e produtos processados e insumos.

"O montante adjudicado é irrisório, demonstra a escassez de divisas, não vai reativar o aparato produtivo, por isso tomaram a decisão de liquidar o título da Pdvsa com um desconto de 69% para oxigenar o Dicom e ter recursos para importações do setor público", declarou à AFP o economista Jesús Casique.

- Dólar negro na ordem do dia -Quando anunciou em abril o mecanismo de leilão -já usado antes-, Maduro assegurou que tinha como objetivo derrotar o "dólar negro", atualmente cotado em cerca de 6.000 bolívares, distorção que atribui a uma "guerra econômica" do setor privado.

O governo tem, além do Dicom, uma taxa de câmbio preferencial de 10 bolívares por dólar, exclusiva para importar alimentos e medicamentos, que devem ser vendidos a preço subsidiado e controlado.

Para comprar esses produtos é preciso enfrentar longas filas nos supermercados. Para o resto de bens e serviços, salvo os essenciais, é usado o Dicom.

Mas com a falta de dólares, muitos empresários importam matéria-primas e outros produtos com divisas que compram no mercado paralelo, o que estimula inflação que, segundo FMI, pode fechar este ano em 720%. Agora há mais produtos nos supermercados, mas a preços altíssimos.

"O paralelo vai estar na ordem do dia porque a quantidade que se leiloou é exígua e vai continuar a volatilidade no mercado paralelo. A solução é a unificação cambial", opinou Casique, diretor da consultoria Capital Market.

O sistema cambial, somado ao controle de preços, segundo analistas, acentuou a escassez, enquanto que o setor produtivo funcione a 30% de sua capacidade.

Mais de 70% dos venezuelanos -segundo pesquisas privadas- rejeita a gestão de Maduro, que diz que oposição e empresários de "direita" promovem o caos e o mal estar popular para derrotá-lo e instaurar um regime neoliberal, complacente com os Estados Unidos.

- O poder supremo -Em meio a protestos, o governante socialista convocou uma Assembleia Nacional Constituinte, que, segundo ele, será "um poder supremo" que poderá tomar decisões "acima da lei" para resolver a grave crise.

A oposição se negou a participar no processo que começa nesta quarta-feira de inscrição de candidatos à Constituinte, por considerá-la uma "fraude" que permitirá ao chavismo ganhar a maioria ainda perdendo as votações, para perpetuar-se no poder.

Uma decisão do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), também acusado pela oposição de aliado do governo, validou a Constituinte sem consulta prévia no referendo, o que segundo a oposição a torna "ilegítima".

Como quase todos os dias desde 1º de abril, os opositores protestaram nesta quarta-feira no leste de Caracas, sem poder ir à chancelaria -como tinham previsto-, porque foram bloqueados por policiais e militares à base de bombas de gás lacrimogêneo.

Várias pessoas ficaram feridas, enquanto repórteres, incluindo um fotógrafo da AFP, denunciaram agressões e roubos de parte da Guarda Nacional.

No centro, seguidores de Maduro protestaram em apoio à Constituição e lançaram duras palavras de ordem contra a procuradora-geral, Luisa Ortega, uma chavista declarada, a quem chamaram de traidora por sua nova postura crítica com o governo Maduro.

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