Em um bairro libertado de Mossul, a pilhagem silenciosa das casas abandonadas

Mossul, Iraque, 5 Jun 2017 (AFP) - Homens, mulheres e crianças percorrem a avenida do bairro Al-Rifai, na zona oeste de Mossul, carregando sacos e empurrando carrinhos abarrotados, com os objetos retirados de casas abandonadas.

"Era do Daesh! Nós não devemos nos vingar?". Parados com um ventilador de teto num ombro e um saco de roupas no outro, dois jovens tentam se defender. "Minha casa foi saqueada, não temos mais nada!", lamenta um.

"Você se vinga assim? Se for corajoso, pega um arma e vá para a frente de combate", retruca um soldado, incrédulo, apontando para a direção de onde vem o som de morteiros e armas automáticas, o eco dos combates entre soldados iraquianos e combatentes do grupo Estado Islâmico (EI).

"Vocês roubaram isso das casas de outras pessoas. Voltem e devolvam!", ordena.

"Foi o Daesh, juro por Deus! Outras pessoas pegaram cadeiras, mesas. Nós pegamos apenas roupas", implora o jovem, apontando a camisa desbotada.

"Vocês não têm vergonha? Não são muçulmanos? Levem de volta para onde tiraram isso", insiste o soldado.

Nenhuma violência, nenhuma tensão nesta avenida devastada de al-Rifai, bairro residencial recuperado pelas forças iraquianas há alguns dias. As pessoas vêm e vão calmamente, por vezes, chegam de mãos vazias e saem com sacos cheios ou com uma geladeira, sofá...

Os moradores do bairro fugiram às pressas há algumas semanas, deixando para trás suas casas. Os combates destruíram paredes e telhados, os interiores estão agora vazios e em silêncio.

O roubado que passa a roubarSegurando uma bicicleta, um homem para e contempla o vai-e-vem. "Essas pessoas não são daqui!", queixa-se para um policial.

Enquanto os combates acontecem a algumas centenas de metros de distância, as forças de segurança controlam a movimentação como podem. Difícil verificar sistematicamente se todos são os donos dos bens que carregam.

Alguns casos parecem óbvios: um adolescente com uma poltrona que excede sua carroça, mulheres que transportam grandes rolos de tecido, um menino com uma mesa de café com rodinhas...

Alguns são enviados de volta, outros escapam ao controle.

A maioria justifica suas ações, dizendo que foram alvos do EI, que confiscou arbitrariamente os bens da população durante o seu reinado de três anos sobre a cidade.

"É uma mentira, eles não podem acessar os edifícios do EI", afirma Abbas Ali, um policial: "Eles vêm de outros bairros para furtar as casas".

Outros explicam que suas próprias casas foram saqueadas e que agora tentam remobiliar.

"Eles dizem que não têm nada, mas isso não justifica o ato de roubar dos outros. São as casas de pessoas que fugiram. O que podemos fazer? ", diz o policial.

A tarefa das forças de segurança é em primeiro lugar proteger o bairro, que fica ao lado da linha de frente de Zinjili, um dos últimos redutos jihadistas antes da Cidade Velha. Os controles são feitos por meio de intuição.

Um menino passa, arrastando atrás de si uma caixa de plástico com uma cortina. A polícia levanta o pano e vê cabos metálicos.

"São cabos elétricos? Quando as pessoas retornarem, não vão querer eletricidade?", lança Abbas Ali.

"Eu os encontrei já cortados, por Deus!", responde o menino, intimidado. "Devolva", rosna o policial: "É a sua cidade que você saqueado".

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