Adolescente morre em protesto contra Maduro e número de vítimas chega a 66

Caracas, 8 Jun 2017 (AFP) - Um adolescente de 17 anos morreu nesta quarta-feira no leste de Caracas durante um protesto contra o presidente Nicolás Maduro, elevando a 66 o número de mortos em pouco mais de dois meses de manifestações da oposição.

O Ministério Público explicou que o jovem morreu "durante uma manifestação em Chacao" e que as causas são investigadas. Dirigentes da oposição responsabilizaram os corpos de segurança. Essa morte acontece um dia depois de o chefe das Forças Armadas advertir que não vai tolerar "atrocidades" dos guardas nacionais nas manifestações.

Milhares de opositores tentaram chegar à sede do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), no centro de Caracas, para protestar contra a Assembleia Nacional Constituinte convocada por Maduro, mas foram bloqueados por policiais e membros da militarizada Guarda Nacional no oeste e no leste da cidade, com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

"Apesar da repressão, continuamos resistindo, erguendo nossa voz, não só em Caracas, mas em todo o país. Que esta violência não nos tire do caminho, só lhes resta a atitude covarde, perderam o apoio popular", disse o deputado opositor Miguel Pizarro.

Os opositores, a quem em quase 70 dias de protestos as autoridades não permitiram chegar ao centro da capital, denunciam uma "repressão selvagem" que inclui o disparo no corpo de bombas de gás lacrimogêneo, bolas metálicas e de gude.

Em um reconhecimento dos excessos cometidos pelos militares nos protestos, o chefe das Forças Armadas e ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, advertiu na terça-feira: "não quero ver mais um guarda cometendo uma atrocidade nas ruas".

A oposição tinha urgido Padrino López a cumprir sua palavra e permitir a marcha desta quarta-feira. Mas o ministro ratificiou no Twitter sua "solidariedade" com os membros da Guarda Nacional Bolivariana, "que com tanta dignidade defendem a Pátria, sempre fiel ao seu dever e sereno no perigo".

"Os mesmos que falam de repressão são os que, com dois pesos e duas medidas, e na escuridão incentivam a violência, a morte e o ódio", acrescentou.

Padrino López se referiu assim ao caso de um militar ferido a tiros nesta quarta-feira em El Paraíso (oeste). Segundo o ministro do Interior, general Néstor Reverol, ele levou um tiro efetuado de um edifício, quando tentava desmontar uma barricada.

"Agora roubam os sapatos"A declaração do ministro ocorreu em meio ao repúdio gerado por vídeos que circularam na segunda-feira nas redes sociais. Neles policiais e militares aparecem agredindo e tirando os pertences de várias pessoas durante um protesto da oposição.

"Tornaram-se delinquentes, não apenas assassinam, mas agora roubam os sapatos e as bolsas das pessoas", declarou o líder estudantil universitário Alfredo García, durante a marcha.

Sem aludir diretamente às indicações contra as forças de segurança, Padrino López, que declarou "lealdade incondicional" a Maduro, advertiu nesta terça-feira que o militar que desrespeitar os direitos humanos "tem que assumir a responsabilidade".

"As palavras sozinhas não bastam, Padrino López. Prenda os guardas que abusam", desafiou a deputada Delsa Solórzano, que atacou o ministro do Interior, o general Néstor Reverol, que comanda a Polícia Nacional Bolivariana, chamando-o de "assassino".

Reverol, sobre quem pesam sanções dos Estados Unidos por suposto tráfico de drogas, foi citado na terça-feira pelo Parlamento para prestar contas sobre a "repressão". Por não ter comparecido, nesta quinta-feira será votada uma moção de censura para sua "remoção", embora as decisões legislativas sejam consideradas nulas pelo Tribunal Supremo de Justiça.

A atuação de policiais e militares também foi criticada pela procuradora-geral, Luisa Ortega, chavista declarada, mas agora considerada traidora pelo governo por se opor à Constituinte.

- "Juro por Deus" -O líder opositor Henrique Capriles sugeriu a existência de uma divisão nas Forças Armadas e entre Padrino López e Reverol. "Quem é que manda?", questionou, ao pedir aos militares que defendam a Constituição.

"Estamos em uma hora decisiva, não deram data a esta fraude constitucional, por isso tem que haver mais gente na rua. O processo constituinte significa mais fome, mais crise", acrescentou.

Mas Maduro afirmou nesta quarta-feira que no dia 30 de julho, "chova ou faça sol", será realizada a eleição da Assembleia Constituinte.

"Ninguém vai impedir, juro por meus ancestrais, por Deus e pela pátria, que ninguém vai impedir que no domingo, 30 de julho, a Venezuela vá votar, votar pela Constituinte", disse o presidente.

A oposição qualifica de "fraude" a Assembleia porque não foi convocada em referendo e tem um sistema de votação territorial e por setores sociais que, assegura, garantirá ao chavismo a maioria dos 545 constituintes.

O Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) rejeitou nesta quarta-feira a ação apresentada pela procuradora-geral, Luisa Ortega, contra a convocação da Constituinte, declarando o pedido "inadmissível e sem legitimidade".

Na quinta-feira, Ortega interpôs uma ação legal contra a Constituinte, depois que a Suprema Corte habilitou Maduro a convocá-la sem um referendo.

Para a oposição, uma eleição geral é a única saída para a severa crise política e econômica que vive o país petroleiro, com uma escassez crônica de alimentos e medicamentos e uma inflação que pode chegar a 720% em 2017, segundo o FMI.

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