Depoimento demolidor de ex-chefe do FBI contra Trump

Washington, 7 Jun 2017 (AFP) - O ex-diretor do FBI James Comey afirmou que o presidente Donald Trump lhe pediu para deixar em paz o general Michael Flynn, investigado por contatos com a Rússia, de acordo com o testemunho por escrito que ele apresentará nesta quinta-feira (8) no Senado.

Em um demolidor documento de sete páginas que lerá diante da Comissão de Inteligência do Senado, Comey afirma que em uma conversa na Casa Branca o presidente pediu que esquecesse de Flynn, que havia renunciado como conselheiro de Segurança Nacional de Trump na Casa Branca.

"Ele me disse: 'espero que possa encontrar uma forma de deixar isso passar, de deixar Flynn em paz. É um homem de bem. Tenho a esperança de que possa se esquecer disso'", relatou Comey em seu depoimento.

Comey estava conduzindo uma investigação sobre as relações entre a Rússia e o comitê de campanha de Trump nas eleições de 2016, e um dos investigados era Flynn, que ocultou de Trump os contatos que manteve com um diplomata russo.

O gesto de Trump de pedir ao diretor do FBI que deixasse em paz um ex-funcionário da Casa Branca pode ser visto com uma tentativa de obstrução da Justiça, um crime previsto na legislação americana e com consequências imprevisíveis para a Presidência.

- "Infectar" a investigação -Em seu depoimento escrito - divulgado nesta quarta-feira pelo Senado - Comey afirma que ao sair desse encontro com Trump redigiu um memorando interno para discutir a situação com os seus subordinados mais próximos.

A condução do FBI, acrescentou, "concordou comigo de que era importante não infectar a equipe de investigação com o pedido do presidente, que eu não tinha a intenção de acatar".

Em outra oportunidade, relatou Comey, Trump o chamou para dizer que a investigação sobre a Rússia era "uma nuvem" que lhe impedia de ver claramente as prioridades do país, e lhe perguntou o que poderia fazer para "dissipar essa nuvem".

Trump "me disse que não tinha nada a ver com a Rússia, que não teve nenhum contato com prostitutas russas e que sempre assumiu que enquanto esteve na Rússia suas conversas foram gravadas", relatou Comey.

O ex-diretor do FBI deve dar nesta quinta-feira um esperado depoimento oral diante do Senado que aparece como um momento importante para o governo de Trump.

A audiência de Comey desperta tamanha expectativa na capital americana que diversos bares de Washington abrirão mais cedo somente para permitir acompanhar a sessão pela televisão ao vivo.

Os senadores interrogaram nesta quarta-feira em uma audiência pública Dan Coats, diretor de Inteligência Nacional; Michael Rogers, diretor da Agência Nacional de Segurança; Andrew McCabe, diretor interino do FBI; e Rod Rosenstein, procurador-geral adjunto.

Um artigo publicado pelo jornal Wahington Post afirmou que a Casa Branca pressionou Coats e Rogers para que negassem uma eventual colusão do comitê de campanha de Trump com a Rússia durante a campanha eleitoral de 2016.

- Tensão no Senado -Durante a audiência, Coats e Rogers negaram enfaticamente ter sofrido pressões de qualquer ordem para exercer suas funções, mas também se negaram firmemente a oferecer detalhes de suas conversas com Trump.

"Jamais sofri qualquer pressão para intervir de qualquer forma para orientar politicamente" o recolhimento de informações, disse Coats.

Rogers assinalou que "ninguém me pediu para fazer nada ilegal, imoral, pouco ético ou inapropriado".

Entretanto, a negativa em dar detalhes sobre suas conversas com o presidente, por considerar que se trata de informação confidencial, provocou a visível ira dos senadores.

O senador conservador Marco Rubio não conseguiu conter a sua irritação. "Não estou pedindo informação confidencial. Estou perguntando se alguém tentou influenciar uma investigação em curso", reclamou.

Coats apenas respondeu: "não vou me referir a isso de forma pública". Rogers, por sua vez, adotou um tom desafiador: "não vou fazer comentários sobre a minha interação com o presidente".

O senador Angus King perguntou a Coats sobre a "base jurídica" para se negar a oferecer detalhes à comissão, e o funcionário admitiu não "estar seguro de ter uma base legal" para não responder.

Além de Coats e Rogers, os senadores interrogaram nesta quarta-feira o diretor interino do FBI, Andrew McCabe, e o procurador-geral adjunto, Rod Rosenstein.

Entretanto, o depoimento mais esperado será o de quinta-feira pela manhã, quando os senadores interrogarem Comey, que teria sugerido em um memorando interno as pressões diretas de Trump.

Depois da demissão do ex-diretor do FBI, o Departamento de Justiça nomeou um procurador especial independente, Robert Mueller, para comandar as investigações sobre o papel da Rússia nas eleições, com poder para convocar testemunhas e exigir documentos.

Por enquanto, a colusão não foi publicamente comprovada.

Questionado na terça-feira sobre a audiência de Comey, Trump respondeu: "lhe desejo boa sorte".

ahg/ja/cb/cc

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