Assassinatos de jornalistas no México se acumulam na mesa da impunidade

México, 14 Jun 2017 (AFP) - Obter informação oficial sobre as investigações de assassinatos de jornalistas parece uma missão impossível no México, onde as autoridades usam a indiferença e artimanhas jurídicas para evadir repórteres que tentam documentar dezenas de homicídios, ainda impunes, cometidos contra seus colegas.

O México é um dos países mais perigosos do mundo para exercer o jornalismo, com mais de cem jornalistas assassinados desde o ano 2000.

Só em 2017 foram cometidos cinco homicídios de jornalistas: Cecilio Pineda, Ricardo Monlui, Miroslava Breach, Maximino Rodríguez e Javier Valdez.

Mais de 90% destes crimes não foram resolvidos pelas autoridades e inclusive estas mesmas autoridades - federais, estaduais e municipais - são apontadas por cometer 60% das agressões (ameaça, sequestro, espancamentos) contra jornalistas, segundo organizações de defesa da liberdade de expressão.

Comprovar o eventual envolvimento de autoridades nos assassinatos é ainda mais complicado porque os jornalistas - mortos - não podem mais contar quem os atacou, explicou à AFP Balbina Flores, representante no México da organização Repórteres sem Fronteiras (RSF).

O México vive sob o jugo dos cartéis do narcotráfico e de bandos do crime organizado, que em muitas ocasiões operam com a conivência de autoridades corruptas.

"A linha é muito tênue" entre criminosos e autoridades corruptas. "Sabemos que estes conluios acontecem", assegura a ativista.

Antes de morrer, Pineda e Rodríguez trabalhavam juntos em matérias policiais. Breach cobria o conflito armado entre dois líderes dos pistoleiros e Valdez documentava a guerra interna entre várias facções do poderoso cartel de Sinaloa.

Para Leopoldo Maldonado, oficial do programa de proteção e defesa do Artigo 19, "a impunidade gerou um aliciente extremamente perverso para que os assassinatos ou desaparecimentos (de jornalistas) continuem ocorrendo".

Artimanhas das autoridadesDepois de cinco jornalistas assassinados em 2017, a impunidade continua sendo a constante, pois nenhum destes crimes foram resolvidos.

E ao tentar investigar os expedientes, a AFP encontrou enormes dificuldades para ter acesso à informação oficial.

A procuradoria especial para a atenção de delitos contra a liberdade de expressão, subordinada à procuradoria-geral, não teve disponibilidade para dar cifras ou entrevista, enquanto a maioria das procuradorias dos estados onde foram cometidos os assassinatos recusaram-se a revelar seus avanços.

As instâncias locais "sempre argumentam que não podem revelar informação das investigações" em curso, mas o que ocorre em geral é que "não fizeram grande coisa", coincide Flores.

O promotor especial de crimes contra a liberdade de expressão, Ricardo Sánchez, negou-se nesta quarta-feira a dar detalhes sobre a investigação do caso Valdez, argumentando sua "responsabilidade em guardar sigilo".

"Há evidências, há pistas", limitou-se a dizer à Rádio Fórmula.

Além disso, as autoridades não dão prioridade à profissão de jornalista como motivação do crime e costumam assumir que se trata de um assalto, crime passional ou, inclusive, que os jornalistas estão envolvidos com os criminosos.

"Sem investigar, se atrevem a fazer este tipo de afirmações públicas de uma forma totalmente irresponsável", lamenta Flores.

No caso de Valdez, as autoridades aludiram a princípio a um roubo de carro.

Ainda mais grave, em vários casos de anos anteriores, as autoridades detiveram "assassinos confessos", mas demonstrou-se que estas confissões "foram obtidas através da tortura" e as conclusões "não estão baseadas em provas científicas", explicou Maldonado, do Artículo 19.

A procuradoria de Chihuahua encerrou as investigações sobre o caso Breach, apesar de os suspeitos estarem foragidos.

No "abismo"Em maio, após o assassinato de Valdez, 39 veículos de comunicação mexicanos e estrangeiros expressaram sua indignação em um pronunciamento conjunto, enquanto várias manifestações se organizaram nos estados onde foram assassinados repórteres este ano.

Pressionado, o presidente Enrique Peña Nieto abordou pela primeira vez a crescente violência contra jornalistas, convocou uma reunião extraordinária com os governadores do país e prometeu "medidas extraordinárias".

A procuradoria-geral ofereceu nesta terça-feira uma recompensa de cerca de 81.500 dólares por pistas que levem aos assassinos de Pineda, Valdez, Rodríguez e Breach.

"Há uma boa intenção, mas deixa muito a desejar, porque nos fatos não se vê essa vontade" das autoridades, avalia Flores. "No México, navegamos neste limbo. E entre a vontade e os fatos, há um abismo".

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