Helmut Kohl: o pai da reunificação alemã

Berlín, 16 Jun 2017 (AFP) - Helmut Kohl, falecido nesta quarta-feira aos 87 anos, realizou de maneira forçada a reunificação da Alemanha, dividida desde a Segunda Guerra Mundial, superando as reticências internas e a preocupação internacional para entrar definitivamente na História.

Considerado um político provinciano por alguns no microcosmos de Bonn, então capital federal, alcançou um novo patamar durante os 11 meses transcorridos entre a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, e a fusão, em 3 de outubro de 1990, da República Federal da Alemanha (FRA), capitalista, com a República Democrática Alemã (RDA), comunista.

Ao tornar realidade o seu sonho de uma Alemanha unida, integrada na Europa e na Otan, ganhou o apelido de "chanceler da reunificação".

Em 10 de novembro, depois de pronunciar a palavra "reunificação" em um discurso aos berlinenses, Kohl recebeu uma sonora vaia da multidão que o ouvia e que aplaudiu com entusiasmo um pouco antes o ex-prefeito da cidade e ex-chanceler social-democrata Willy Brandt.

Entretanto, o chanceler não se deu por vencido e em 28 de dezembro apresentou no Parlamento um programa de 10 pontos até a reunificação, propondo primeiro a instauração de estruturas confederais. "Em algumas semanas começa a última década deste século, o século de tanta miséria, de sofrimento e de sangue", disse.

"Hoje há sinais promissores que mostram que os anos 1990 podem ser portadores de mais paz e liberdade na Europa e na Alemanha. É necessário - todos sentem - dar a nossa contribuição, devemos aceitar juntos o desafio da História", acrescentou.

A União Cristão Democrata (CDU) de Kohl ganhou as primeiras eleições livres na Alemanha Oriental, em 18 de março de 1990, com 40,8% dos votos, um resultado que para o chanceler teve o valor de um plebiscito. A população da RDA acreditava nos efeitos positivos de uma unificação rápida.

Propunha a paridade entre o poderoso Deutschemark ocidental e o Volksmark do leste, uma iniciativa duramente combatida pelo Bundesbank, o banco central da RFA, que considerava com toda a razão a situação econômica da república comunista muito mais desastrosa do que se poderia pensar pela sua classificação de 10º potência econômica mundial.

O gesto foi tanto uma medida de solidariedade com os alemães do leste como uma decisão destinada a evitar o seu êxodo em massa para o oeste.

"O preço político - e econômico - de uma unificação alemã ainda atrasada havia sido como toda a segurança muito mais alto do que o obstáculo financeiro que aceitamos ao optar pela via rápida da reunificação", escreveu Kohl em 1996, quando o Estado federal pagou 480 bilhões de dólares às regiões da ex-RDA.

"Inclusive se soubesse dessas cifras [o balanço econômico da RDA] na primavera de 1990, não teria agido de outra maneira nos principais pontos", acrescentou então.

A promessa de transformar os novos Länder (estados) do leste em "paisagens florescentes" não se cumpriu e a Alemanha esteve durante muito tempo impedida pelo enorme peso financeiro e social de uma transição brusca.

No exterior, o chanceler também teve que trabalhar para convencer os seus aliados, em particular o presidente francês François Mitterrand e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, ambos com muitas reservas sobre a reunificação.

No entanto, se apoiou na estreita relação com o presidente dos Estados Unidos George Bush pai, e também usou os vínculos de confiança com o russo Mikhail Gorbachev para conseguir retirar as tropas soviéticas.

Graças à reunificação, sua "grande obra", Kohl deixou a chancelaria em 1998 com a Grande Cruz da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha, uma distinção somente obtida pelo chanceler do pós-guerra Konrad Adenauer.

Nesse mesmo ano foi recompensado com o título de Cidadão de Honra da Europa, concedido até então apenas a Jean Monet. E desde o fim de sua carreira política, a cada outono, o nome do chanceler que reunificou a Alemanha 45 anos após o nazismo, aparecia nas opções para o Prêmio Nobel da Paz.

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